Ilustração: Smaranda Tolosano para GIJN
Recursos Guia
Guia: Introdução ao Jornalismo Investigativo
Recursos Guia Capítulo
Introdução ao Jornalismo Investigativo: Introdução
Recursos Guia Capítulo
Introdução ao Jornalismo Investigativo: Técnicas de entrevista para iniciantes
Recursos Guia Capítulo
Introdução ao Jornalismo Investigativo: Seguindo o dinheiro
Recursos Guia Capítulo
Introdução ao Jornalismo Investigativo: Jornalismo de dados
Recursos Guia Capítulo
Introdução ao Jornalismo Investigativo: Verificação de Fatos
Recursos Guia Capítulo
Introdução ao Jornalismo Investigativo: Segurança Digital
Recursos Guia Capítulo
Introdução ao Jornalismo Investigativo: Colaborações
Seguir o dinheiro é um conjunto complexo de técnicas que permite aos repórteres rastrear o fluxo de dinheiro pelo mundo, descobrir ativos ocultos e esquemas financeiros complexos, incluindo lavagem de dinheiro e suborno. É também fundamental para identificar quem se beneficia da corrupção e do crime.
Jornalistas iniciantes muitas vezes acham que rastrear dinheiro é tão difícil que parece impossível. A boa notícia é: não é. Nunca houve tantos registros disponíveis para jornalistas.
Por que seguir o dinheiro? Porque isso leva ao destino do dinheiro sujo e à sua origem. Esquemas financeiros não são crimes sem vítimas. O preço é pago pelas pessoas comuns, que têm que pagar impostos mais altos ou sofrem com a perda de serviços porque os ricos fugiram com o dinheiro.
O rastro do dinheiro conecta políticos corruptos a criminosos e a irregularidades generalizadas que vão muito além da propriedade oculta de mansões em locais exclusivos e iates de luxo. Revela quem está realmente por trás de negócios escusos que deveriam servir ao público, mas acabam nos bolsos de criminosos. E pode levar jornalistas à origem da corrupção, incluindo o tráfico ilegal de armas e o narcotráfico. Quais são os principais passos para seguir o dinheiro com sucesso?
Antes de começar, aprenda a linguagem, os jargões — palavras como agentes, agentes de formação, intermediários, oficiais, beneficiários finais, UBOs (beneficiários finais definitivos) ou mandatários.
Os proxies (procuradores) têm uma função legítima em muitas situações, mas em algumas delas — as que nos interessam — podem ser indivíduos ou empresas que ajudam outras pessoas a ocultar suas identidades como proprietárias de ativos, como laranjas/testas de ferro. Em alguns casos, os indivíduos que desempenham essa função muitas vezes não sabem que são procuradores. Isso pode ser considerado um tipo de roubo de identidade. No entanto, há uma mudança em curso atualmente, e muitos procuradores se tornam procuradores conscientemente — mediante pagamento.
Procuração é outro termo importante para entender antes de investigar casos de corrupção. Trata-se da representação oficial da empresa por um advogado ou escritório de advocacia. Eles podem estar auxiliando na ocultação de dinheiro e patrimônio.
Passo 1: Elabore um perfil da pessoa que você está investigando
Seguir o dinheiro tem tudo a ver com nomes. Quanto mais nomes você conseguir, maiores serão suas chances de encontrar informações. Altos funcionários raramente possuem empresas em seus próprios nomes. Figuras do crime organizado costumam se esconder atrás de advogados. Executivos corruptos frequentemente contratam laranjas para encobrir seus rastros.
Comece consultando a maior variedade possível de fontes de notícias, mas lembre-se de não as considerar como fatos absolutos. Certifique-se de verificar os arquivos de mídia do país onde a pessoa em questão atua, pois artigos frequentemente desaparecem de sites, se perdem com o fechamento de veículos de comunicação ou informações importantes são anteriores à internet. Leia tudo o que foi escrito sobre a pessoa que você está investigando. Anote todos os nomes e todas as informações que encontrar — podem ser empresas, associados, procuradores, advogados, familiares, amigos, inimigos, até mesmo datas de nascimento, babás e endereços residenciais. Jornalistas nunca devem assumir que o que leem em outras publicações seja absolutamente comprovado. Eles precisam apurar os fatos por conta própria.
Crie uma planilha para inserir as novas informações que você descobrir. Use esse banco de dados como ponto de partida para pesquisar registros online e offline e continue adicionando novos nomes à medida que os encontrar. Existem mecanismos de busca, como o DuckDuckGo, que armazenam menos rastros das suas pesquisas do que outros, como o Google.
Passo 2: Pesquise em todos os bancos de dados online disponíveis
Vivemos numa era de ouro no que diz respeito ao rastreamento de dinheiro além-fronteiras. Nunca tivemos acesso a tantas bases de dados a nível global – não apenas registos nacionais individuais, mas também bases de dados agregadas e vazamentos. Estamos sempre tentando conseguir o máximo de documentos possível sobre uma pessoa ou empresa.
Registros públicos online e offline, como registros de empresas, títulos de propriedade de terras, registros judiciais, listas de lobistas e cadastros, podem fornecer informações importantes. Em primeiro lugar na lista de locais para iniciar as buscas estão sempre os registros de empresas e corporações locais, seguidos por Opencorporates, Companies House, Open Ownership Register e outros. Registros de terras e imóveis locais, como endereços, podem nos dizer muito. Também costumamos verificar no Google Maps. Eles podem nos informar se há outras empresas no mesmo local, quem são os vizinhos e muito mais.
Bases de dados online como Sayari, Lexis-Nexis e Orbis podem fornecer informações relevantes, embora possam ser muito caras. Por vezes, oferecem preços com desconto para organizações de mídia. Algumas universidades, bibliotecas ou institutos de pesquisa têm acesso a estas bases de dados e os jornalistas podem ter permissão para usá-las.
Nunca devemos nos esquecer de ampliar as buscas por empresas ou pessoas além de seus países de origem. Às vezes, entidades podem ter empresas “irmãs” ou “mães” em outros países. Informações sobre empresas adicionais podem estar listadas nos registros locais sob os nomes de acionistas ou beneficiários finais. Em alguns casos, empresas podem estar registradas com nomes semelhantes ou idênticos em outros locais e em jurisdições offshore.
Aprender os termos relevantes do mundo offshore pode nos ajudar a entender onde o dinheiro está escondido. Muitos agentes corruptos usam agentes, intermediários, indicados e advogados para ocultar seus bens. O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) criou uma lista dos termos mais comuns do mundo offshore com breves explicações.
Transferir dinheiro para paraísos fiscais que oferecem condições mais favoráveis, como evasão fiscal, regulamentações mais flexíveis ou proteção patrimonial, é uma das maneiras pelas quais criminosos podem proteger seus bens. Mas existem outras, como a compra de obras de arte ou antiguidades a preços inflacionados para disfarçar a origem de fundos obtidos ilegalmente. A criação de trusts, legal tanto nos Estados Unidos quanto em paraísos fiscais, e a compra de imóveis também visam o mesmo objetivo.
Políticos, oligarcas e criminosos frequentemente não constam como proprietários de empresas, bens, carros de luxo, iates ou jatos, ao invés disso listando estes em nome de outras empresas ou indivíduos. Pesquisar estruturas de propriedade mais complexas pode ser um desafio, mas organizações de mídia investigativa como o ICIJ e o OCCRP oferecem suporte adicional a jornalistas. É possível enviar uma consulta a ambas as organizações solicitando informações adicionais sobre uma pessoa ou empresa. Ambas as organizações possuem bancos de dados online úteis para jornalistas. O banco de dados Offshore Leaks, por exemplo, contém informações sobre cerca de 810.000 empresas offshore, fundações e trusts provenientes das investigações Pandora Papers, Paradise Papers, Bahamas Leaks, Panama Papers e Offshore Leaks. Já o Aleph é uma plataforma de dados que reúne um vasto arquivo de bancos de dados, documentos, vazamentos e investigações atuais e históricos.
Mesmo quase uma década após a publicação dos Panama Papers, novas histórias ainda surgem do banco de dados. Continue pesquisando neste e em outros bancos de dados semelhantes, pois nem todas as histórias foram abordadas.
Qualquer pessoa pode navegar no Aleph, seja anonimamente ou criando uma conta de usuário. Se você for um jornalista profissional, pode se candidatar a ser tornar um Amigo do OCCRP para obter acesso mais amplo aos dados e materiais do Aleph.
É importante não esquecer os pedidos de acesso à informação, que são lei em mais de 100 países. Usando essa informação, os jornalistas podem encontrar dados relevantes sobre gastos públicos, relatórios financeiros de empresas, orçamentos governamentais e muito mais.
Hoje em dia, as redes sociais também fornecem informações importantes sobre acobertamentos financeiros, especialmente quando se trata de cônjuges, parentes e amigos que podem ser os beneficiários finais de empresas, protegendo a identidade de políticos e criminosos.
Mesmo na era digital, as fontes humanas e as bases de dados offline continuam sendo importantes para fornecer informações adicionais. Bases de dados offline, como arquivos, registros de terras e bibliotecas, são bastante úteis. Em muitos países, buscar informações pessoalmente, mesmo que exista uma versão online, geralmente faz muita diferença.
Por fim, não se esqueça de procurar registros públicos em outros países além daquele onde o suspeito reside ou atua. Utilize o ID do OCCRP, um índice global de registros de mais de 180 países reunidos em um só lugar.
Passo 3: Analise informações e dados
Depois de coletar informações e dados, é necessário analisar e organizar os pontos interligados em uma reportagem investigativa de fácil leitura. Os repórteres não trabalham sozinhos na “decodificação” de grandes quantidades de dados — muitas vezes, contam com a ajuda de jornalistas de dados, desenvolvedores e equipe técnica, que os auxiliam a rastrear o dinheiro.
Um local importante no qual se concentrar são as demonstrações financeiras da empresa. Embora possam parecer intimidadoras à primeira vista, fazer as perguntas certas pode levar você a ótimas histórias. Por exemplo, quais são os ativos dessa empresa e de onde veio seu dinheiro? Ela deve quantias enormes a fornecedores e a quem, em particular? Certa vez, descobrimos que uma empresa do Reino Unido pagou uma comissão de sucesso a uma empresa que, posteriormente, associamos ao genro do presidente de outro país.
Fique atento a empresas com altos valores a receber. Isso ocorre quando uma empresa vendeu muitos produtos ou serviços, mas não recebeu os pagamentos. Pode ser um sinal de má gestão financeira, mas também pode significar que o dinheiro está sendo escondido em outro lugar, até mesmo fora do país.
O dinheiro pode ser transferido para empresas de fachada — entidades sem operações comerciais reais ou ativos significativos. Então, a empresa à qual o dinheiro era devido pode recuperá-lo, na forma de empréstimo, da empresa de fachada associada, evitando impostos e nunca pagando o empréstimo à empresa de fachada.
Passo 4: Sempre trabalhe com jornalistas locais
O dinheiro não reconhece fronteiras e as transações são feitas em todo o mundo. Os jornalistas devem trabalhar com colegas de outros países — repórteres locais que muitas vezes entendem e sabem como encontrar informações adicionais em seus próprios países, e podem ser capazes de agregar um importante enfoque local às reportagens.
Caso não conheça ninguém de determinados países, jornalistas profissionais e suas organizações de mídia podem ser encontrados na lista de parceiros do OCCRP, da GIJN e do ICIJ
Você economizará tempo trabalhando com jornalistas locais, que podem precisar de apenas alguns minutos para identificar um banco de dados com as informações necessárias. As pessoas gostam de ajudar. Basta entrar em contato com elas.
Passo 5: Bancos de dados adicionais
Os registros judiciais também podem ser uma ótima fonte para investigações de “rastreamento de dinheiro”. Afinal, essas disputas comerciais não se resolvem sozinhas. Você deve procurar não apenas dentro do seu próprio país, mas também em jurisdições conhecidas como os EUA e o Reino Unido. O Pacer é um banco de dados online que contém registros públicos de processos judiciais, incluindo declarações juramentadas, provas e outros documentos apresentados em juízo. Os registros judiciais do Reino Unido são mais limitados. O Bailli (Instituto Britânico e Irlandês de Informação Jurídica) possui um banco de dados de veredictos judiciais do Reino Unido facilmente pesquisável.
Se você estiver relatando sanções ou quiser rastrear a origem de mercadorias, os dados comerciais serão muito úteis. Para encontrar informações sobre importações e exportações, consulte, por exemplo, o ImportGenius e o banco de dados UN Comtrade. Encontrar uma empresa ou pessoa sob sanções é uma tarefa complexa. Por isso, recomendamos a consulta dos seguintes bancos de dados: OFAC e Open Sanctions.
A Offshore Alerts, outro recurso importante, oferece um excelente banco de dados de tribunais offshore e onshore. Eles “caçam sinais de alerta em finanças internacionais de alto valor, monitorando tribunais offshore e onshore, ações regulatórias, materiais de oferta e outras fontes – e enviam resumos por e-mail”.
Passo 6: Pense fora da caixa
Para a investigação dos Pandora Papers, um importante projeto jornalístico colaborativo que proporcionou uma nova visão sobre um sistema financeiro ilícito que beneficia os ricos, os jornalistas tiveram que ser criativos.
O Pandora Papers revelou mais de 1.600 obras de arte negociadas secretamente por meio de paraísos fiscais. A arte é frequentemente usada para ocultar dinheiro e inseri-lo em fluxos oficiais. O ICIJ, o Finance Uncovered e o Washington Post publicaram uma investigação examinando coleções asiáticas de museus, incluindo antiguidades cambojanas que passaram pelas mãos de um conhecido colecionador de arte. Os repórteres encontraram dezenas de peças de arte Khmer, usando fontes públicas como livros, sites de museus, catálogos de galerias, blogs de arte e com a ajuda de especialistas, que pertenciam ao colecionador ou foram negociadas por ele. Os jornalistas verificavam dimensões e outros detalhes para confirmar a autenticidade das obras de arte.
Rastrear o dinheiro é uma habilidade poderosa para se ter, e as reportagens geradas por ela têm um impacto significativo. Às vezes, o resultado é a criação de novas leis para prevenir a lavagem de dinheiro. Outras vezes, políticos perdem seus cargos devido a reportagens investigativas que revelam suas riquezas ocultas. Mas o produto mais importante dessas reportagens é servir ao interesse público — lançando luz sobre lugares que ninguém havia investigado antes.
Miranda Patrucic ingressou no OCCRP em 2006 e foi promovida a editora-chefe em 2023. Ela supervisiona as operações editoriais da redação global do OCCRP, incluindo mais de 50 editores em seis continentes, e a produção das investigações e do conteúdo do OCCRP. Patrucic foi uma das primeiras funcionárias do OCCRP, começando em Sarajevo como a primeira verificadora de fatos da organização, antes de se tornar pesquisadora, repórter, instrutora e editora. Ela supervisionou o trabalho nos Bálcãs e ficou conhecida por suas reportagens sobre o regime autoritário no Azerbaijão, após sua amiga e repórter investigativa Khadija Ismayilova ter sido condenada à prisão naquele país em 2015.
Jelena Cosic é gerente de treinamento do ICIJ, coordenadora de parcerias para a Europa Oriental e repórter de dados. Nos últimos cinco anos, ela trabalhou em projetos globais do ICIJ, como Pandora Papers, Cyprus Confidential, Fincen Files, Deforestation Inc. e outros. Jelena já treinou mais de 2.000 jornalistas investigativos em todo o mundo. Ela recebeu diversos prêmios de jornalismo investigativo, incluindo um Certificado de Excelência do Global Shining Light Award; um Prêmio de Jornalismo Investigativo da UE nos Balcãs Ocidentais e na Turquia; e vários prêmios durante seu trabalho no ICIJ, como o Prêmio Tom Renner, finalistas do Prêmio Pulitzer e indicados ao Prêmio Nobel da Paz.