Ilustração: Amanda Miranda, Agência Pública. Republicado com permissão.
Da Machosfera ao Feminicídio: Investigando a misoginia e a violência contra as aulheres
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Da investigação de supostos atos de violência cometidos por famosas e poderosas estrelas do esporte na Alemanha a descoberta das realidades do feminicídio no Brasil, passando pela análise de pistas digitais para descobrir como as celebridades da “machosfera” criaram um centro real na cidade litorânea espanhola de Marbella, repórteres do mundo todo estão investigando a violência de gênero, o sexismo e a discriminação.
Eles estão investigando as brechas legais e as normas culturais que permitem que tais danos persistam e revelam como as dinâmicas de poder de gênero se manifestam nessas diferentes realidades vividas.
Para o Dia Internacional da Mulher deste ano, conversamos com as repórteres responsáveis por essas três investigações para descobrir como conduziram seus projetos, o que descobriram e, quando relevante, suas dicas para trabalhar em reportagens dessa natureza, principalmente como priorizam a segurança das fontes para garantir que a exposição da injustiça não a reproduza.
Vale ressaltar que, mesmo enquanto mulheres reportando essas histórias, elas também enfrentam abusos, principalmente online. Um relatório do Conselho da Europa observou como “as jornalistas têm sido alvo de abusos de forma desproporcional, pois enfrentam um risco duplo: serem atacadas por causa de seu trabalho e por causa de seu gênero”. O relatório citou uma pesquisa da Stand Up for Journalism de 2025 que constatou que até 87% das jornalistas sofreram violência online relacionada ao seu trabalho e que “as jornalistas são rotineiramente expostas à violência de gênero, incluindo ameaças de estupro, abuso misógino, estigmatização, perseguição e ameaças de morte”.
A tecnologia também desempenha um papel importante no tipo de ataques online que jornalistas e outras mulheres enfrentam.
Polina Bachlakova, repórter de tecnologia do Fuller Project, tem acompanhado o crescimento global das tecnologias de vigilância, observando que mulheres e ativistas com diversidade de gênero, que estão na linha de frente dos movimentos de protesto, são frequentemente alvos. A reportagem de Bachlakova sobre a repressão digital transnacional baseada em gênero mostrou como é fácil e relativamente barato para governos e indivíduos adquirirem spyware capaz de invadir o telefone e o computador de uma mulher para vigiá-la, intimidá-la e assediá-la.
“Leis, regulamentações e proteções que supostamente protegem as mulheres de serem reprimidas transnacionalmente e lhes garantem algum tipo de justiça existem no papel, mas são absolutamente inacessíveis”, disse Bachlakova.
Investigando a violência contra mulheres e jogadores de futebol profissionais
Foi uma cadeia de contatos pessoais que ligou a repórter investigativa Gabriela Keller à primeira fonte. A mulher a quem ela foi apresentada disse ter sido submetida a violência extrema por seu ex-parceiro, um jogador de futebol de alto nível. Segundo seu relato, ele continuou a persegui-la mesmo após o término.
“Ela tinha esse forte sentimento de injustiça, mas ninguém estava interessado no que ela tinha a dizer”, disse Keller, uma repórter sênior que na época trabalhava para a redação investigativa CORRECTIV, com sede em Berlim. “Nem a polícia, nem o tribunal, nem a diretoria do clube de futebol”.
De muitas maneiras, recorrer à mídia era sua única chance de ser ouvida. “Mulheres abusadas por homens famosos e ricos têm poucos incentivos para falar. Elas não têm nada a ganhar — praticamente nada — e correm muitos riscos”, disse ela à GIJN.
Mas, à medida que Keller e seus colegas começaram a investigar o caso — e outros que surgiram durante o curso do projeto — depararam-se com um obstáculo: acordos de confidencialidade (NDAs) que limitavam o que muitas mulheres que alegaram violência e intimidação por parte de parceiros e ex-parceiros podiam dizer, e um medo de sofrerem represálias por se manifestarem. “Meu ex pode arruinar minha vida”, uma mulher disse a eles.
Os acordos de confidencialidade representaram um desafio: como poderiam expor o que acreditavam ser um contexto mais amplo de abuso se não podiam divulgar os nomes das mulheres ou dos jogadores de futebol acusados?
A equipe decidiu começar com a história de uma mulher que eles podiam identificar — uma modelo e influenciadora polonesa que alegou ter sido abusada por um jogador de futebol de alto nível quando estava com ele. Ela cometeu suicídio dias depois de supostamente assinar um acordo de confidencialidade que a obrigava a apagar “imediatamente” e “irremediavelmente” todas as evidências de seu relacionamento com ele: fotos, mensagens, e-mails. (O jogador em questão sempre negou as acusações de violência feitas contra ele).
Por fim, repórteres do CORRECTIV e do Süddeutsche Zeitung conversaram com nove mulheres que disseram ter sido abusadas por seus ex-parceiros, todos jogadores de futebol. A investigação, Abuso de Poder no Futebol Profissional (em tradução livre), revelou o que Keller descreve como padrões e paralelos “assustadores” não apenas de violência, mas também de vigilância, intimidação e isolamento.
A reportagem revelou alegações que variam desde a agressão física sofrida por uma vítima até o sofrimento emocional: uma das mulheres disse ter sido trancada em um banheiro, outra relatou ter descoberto um dispositivo de escuta instalado em seu quarto.
Mas, além dos depoimentos sobre violência doméstica, a equipe de reportagem queria explorar como os acordos de confidencialidade estavam criando um muro de silêncio: eles descobriram que os acordos eram frequentemente apresentados quando o relacionamento começava a se deteriorar. Na Alemanha, os acordos de confidencialidade na vida privada são, em grande parte, impraticáveis, mas isso não diminui o efeito psicológico pretendido. “O acordo de confidencialidade cria uma insegurança profunda”, disse Keller.
A intimidação continuou por meio de advogados, dirigentes de clubes de futebol e assessores de imprensa, todos com o objetivo de proteger a reputação dos astros do futebol e desacreditar suas ex-parceiras. Como um dos homens acusados teria dito à sua ex-namorada: “Quem você acha que vai acreditar em você?”
Embora a série tenha levado um legislador a pedir uma revisão dos limites dos acordos de confidencialidade, ela resultou em poucas mudanças formais na governança ou na legislação do futebol. Um dos jogadores de futebol citados na reportagem foi condenado pelos tribunais a pagar uma multa por agredir sua namorada e também foi dispensado pelo FC Bayern depois que torcedores protestaram contra seu possível retorno. Pouco antes do início de uma partida da Liga dos Campeões, manifestantes desenrolaram uma faixa com os dizeres: “Contra o abuso de poder e a violência física e psicológica em relacionamentos”.
A história começou com o relato de uma mulher que não foi acreditada, mas, ao final do projeto, havia sinais de que as pessoas se recusavam a ignorar o problema. Para Keller, o impacto também pode ser sentido na forma como a série expôs os sistemas deliberados e bem financiados que protegem homens poderosos e silenciam mulheres.

A série “Abuso de Poder no Futebol Profissional” da CORRECTIV examinou mulheres em relacionamentos abusivos e violentos com jogadores de futebol profissional na Alemanha. Imagem: Captura de tela, CORRECTIV
Reportando sobre vítimas de violência doméstica
Reportar sobre violência doméstica envolvendo figuras públicas exige mais do que o rigor investigativo padrão. Para Keller, cobrir esses casos demanda tanto precisão metodológica quanto empatia aguçada para evitar causar danos.
- Os sobreviventes ditam o ritmo: “É preciso avançar com cautela durante todo o processo”, destacou Keller. Insistir em detalhes ou acelerar o processo pode se tornar mais uma fonte de pressão em vidas já moldadas pelo controle.
- Seja transparente sobre o processo: Keller explica às suas fontes desde o início que precisará de documentos, mensagens, fotos e testemunhas, e que deverá contatar o acusado para obter um comentário, que será publicado. “Não se trata de não acreditar neles. É que eu preciso ter uma forma de defender a história”.
- Equilibre a independência editorial: “Quando uma jornalista mais jovem, me disseram para não deixar ninguém interferir na minha história”, mas ela observou: “Não é a sua história. É ela [a fonte] que tem de arcar com as consequências quando a matéria é publicada”. Ela envia as citações às mulheres com quem conversou e lê a matéria pelo telefone para encontrar um equilíbrio entre sensibilidade e independência editorial.
Feminicídio no Brasil
Na véspera de Ano Novo de 2021, no Brasil, pelo menos sete mulheres foram mortas em incidentes classificados como feminicídio. Para a jornalista Laís Martins, os eventos daquela noite não foram uma anomalia estatística, mas um ponto de ruptura.
“Os casos de feminicídio haviam se tornado extremamente comuns. Todos os dias havia notícias de novos casos, e me lembro que aquele dia em particular foi marcante”, recordou Martins.
Ao mesmo tempo, outra mudança estava em curso. O então presidente Jair Bolsonaro estava afrouxando as leis de armas, ampliando o acesso de civis a armas de fogo e impulsionando um aumento nas vendas e importações de armas de grosso calibre.
Martins já vinha cobrindo as mudanças legais e o mercado de armas em expansão. A questão que impulsionou seu projeto, Feridas, era se o acesso mais fácil a armas de fogo estava remodelando os crimes mais íntimos do país. Mais mulheres estavam morrendo porque havia mais armas em circulação?
Martins mergulhou no mundo técnico das armas de fogo, lendo literatura especializada e cultivando fontes de especialistas para entender calibres, gatilhos e a energia cinética das armas. Alguns casos de feminicídio estavam ligados a assassinatos com faca, mas Martins queria entender como armas de grosso calibre estavam ligadas a um maior número de fatalidades.
Ela até chegou a visitar um estande de tiro para entender melhor o que descreve como um universo “extremamente masculino e intimidador”. Mas o cerne da investigação estava nos dados.
“Isso envolveu um trabalho implacável de acesso à informação”, disse Martins sobre os pedidos de acesso à informação apresentados aos departamentos de segurança pública em todos os estados do Brasil, buscando números sobre posse de armas, feminicídio e as armas utilizadas.
Seus esforços de reportagem expuseram fragilidades sistêmicas: os dados não eram padronizados e muitos feminicídios foram classificados erroneamente como homicídios, obscurecendo as motivações de gênero. Martins buscou padrões para preencher as lacunas. Sua investigação descobriu que armas de fogo que antes eram restritas estavam aparecendo com frequência crescente em casos de feminicídio. Ela também examinou as disparidades raciais, constatando que as mulheres negras eram desproporcionalmente afetadas pela violência armada.
Martins citou alguns dos filhos das mulheres assassinadas em sua reportagem, usando documentos da promotoria em vez de entrevistá-los. “Eu não os entrevistaria mesmo se tivesse a chance. Acredito que perder a mãe ou uma parente e, em alguns casos, testemunhar um crime como esse, já é traumatizante o suficiente”.
A reportagem enfrentou barreiras institucionais, mas contribuiu para um conjunto mais amplo de evidências que ligam a liberalização das leis de armas ao aumento da violência de gênero. O atual presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, tomou medidas para endurecer as regulamentações sobre armas de fogo, e Martins acredita que essas investigações ajudaram a moldar a compreensão pública das conexões entre a posse de armas e o feminicídio. O impacto também foi pessoal: mulheres escreveram para Martins dizendo que a reportagem lhes deu coragem para persuadir seus parceiros a repensarem a posse de armas de fogo, e alguns até abriram mão de suas armas.
A Machosfera: De subcultura online a uma rede no mundo real
A ONU Mulheres define a “machosfera” como as comunidades online que “têm promovido cada vez mais definições restritas e agressivas do que significa ser homem — e a narrativa falsa de que o feminismo e a igualdade de gênero ocorreram à custa dos direitos dos homens”.
Governos e grupos de defesa têm escrutinado cada vez mais suas ligações com a misoginia online e a violência no mundo real, enquanto muitos têm apontado os perigos das redes que denigrem e demonizam as mulheres.
Uma investigação do Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), intitulada “Sol, Cigarros e Sexismo: como Marbella, na Espanha, se tornou um ponto de encontro para influenciadores da ‘machosfera‘” (tradução livre), descobriu que esse ecossistema não se limita à internet. Figuras influentes com grandes públicos e empreendimentos comerciais convergiam repetidamente para a cidade costeira espanhola de Marbella, levantando questões: Por que lá? O que estava se formando? E por que deveríamos nos importar?
“Não estamos interessados em crenças privadas. Quando movimentos influentes online desenvolvem infraestrutura no mundo real — eventos, negócios, redes — isso os coloca firmemente no âmbito do interesse público”, disse a repórter investigativa independente Mayya Chernobylskaya, que trabalhou na matéria.
O OCCRP concentrou-se em definir uma parte específica da machosfera por meio de indicadores rastreáveis, como retórica misógina, negócios e vínculos ideológicos. Em seguida, construíram um banco de dados de figuras que convergiam em Marbella e o filtraram cruzando os nomes com registros comerciais, mídias sociais, conteúdo aprofundado e declarações oficiais.
Os membros da equipe de reportagem mergulharam nos podcasts, transmissões ao vivo e cursos de estilo de vida criados pelos influenciadores identificados como parte da rede da machosfera de Marbella. Essas informações, por sua vez, forneceram insights sobre as conexões entre esses indivíduos e seu autoposicionamento. O conteúdo online e as dimensões offline apontaram para cerca de 20 pessoas que atendiam aos critérios da machosfera e tinham conexão com Marbella, indicando uma subcultura online que funciona como uma rede no mundo real.
“Isso nos deu a certeza de que não se tratava de um caso isolado — apontava para um grupo real que valia a pena denunciar”, disse Chernobylskaya. A partir daí, foi uma investigação de “seguir as pessoas”, que consistiu em mapear as redes e ancorar a retórica em casos legais documentados e conexões no mundo real.
A investigação descobriu que influenciadores como Andrew Tate e seu irmão Tristan (que negaram as acusações de tráfico humano e estupro no Reino Unido e de formação de um grupo de crime organizado na Romênia) conviviam com outros influenciadores, como Stirling Cooper, um astro pornô aposentado que supostamente está recrutando jovens na Austrália para o movimento neonazista, e Conor McGregor, um lutador irlandês de MMA que foi considerado culpado de agressão sexual na Irlanda.
O OCCRP publicou a reportagem em conjunto com parceiros na Bélgica e na Espanha. Os leitores disseram que mapear os locais e redes compartilhados por influenciadores da machosfera tornou o fenômeno mais real e perturbador. O que parecia ser apenas conversa online revelou-se estar inserido em espaços físicos identificáveis.
Segundo Chernobylskaya, estabelecer uma definição clara de machosfera e vinculá-la a características documentáveis foi um primeiro passo crucial na investigação. “É preciso manter o foco nas evidências. Em temas polêmicos, a credibilidade depende da precisão: prove o que puder e não exagere”, afirmou.
Ana P. Santos é uma jornalista com mais de 10 anos de experiência. Seus trabalhos foram publicados por Rappler, DW Germany, The Atlantic e The Los Angeles Times. Ela se especializou em reportagens sobre questões de gênero relacionadas à saúde sexual e reprodutiva, HIV e violência sexual, e, como bolsista Persephone Miel do Pulitzer Center em 2014, fez reportagens sobre migração laboral na Europa e no Oriente Médio.

