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Protesto de 2019 no sul da África contra a violência de gênero. Imagem: Shutterstock

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Usando dados para expor a violência sistêmica de gênero — em 10 etapas

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Tudo começou com a história de uma mãe enlutada. Perto da cidade de Matsapha, no centro de Eswatini, o pequeno reino da África Austral anteriormente conhecido como Suazilândia, a filha de Zodwa Nkambule foi atacada e estuprada com tanta violência que ficou impossibilitada de andar e precisou de frequentes visitas ao hospital, vindo a falecer posteriormente. O homem acusado do crime foi preso, mas depois libertado e morreu sem ser indiciado.

Esta é apenas uma de muitas histórias trágicas. Uma investigação sobre a violência sistêmica contra as mulheres em Eswatini, realizada pelo Centro de Jornalismo Investigativo Colaborativo (CCIJ), intitulada “Without Justice: How Eswatini’s System Is Failing Victims of Gender-Based Violence” (Sem Justiça: Como o sistema de Eswatini está falhando com as vítimas de violência de gênero), observa que — em um período de seis meses — “A palavra ‘estupro’ aparece[u] no Times of Eswatini quase todas as semanas” e que as taxas de casos de estupro no país estão acima da média internacional — e ainda assim subnotificadas.

O relato de Nkambule foi a faísca inicial para o que mais tarde se tornou uma investigação em larga escala que — em vez de reportar sobre incidentes ou perpetradores individuais — focou nos fatores e instituições sistêmicos que permitem a agressão sexual e a violência contra as mulheres em Eswatini, e em como o sistema judicial falha com as vítimas. Ao encontrar, recolher e analisar dados judiciais, os jornalistas transformaram uma única história pessoal em uma investigação baseada em provas sobre um problema sistêmico que há muito era discutido, mas cuja verdadeira extensão permanecia obscura.

Uma equipe do CCIJ — que apoia o jornalismo investigativo em todo o mundo por meio de mentoria e recursos editoriais — analisou os padrões de cobertura de crimes no Times of Eswatini; entrevistou ativistas que lutam por mudanças e uma mulher afetada diretamente por esses crimes; examinou três anos de dados coletados pela organização sem fins lucrativos Swaziland Action Group Against Abuse (SWAGAA); e analisou mais de 4.600 casos do tribunal superior de 1977 até o presente, encontrando mais de 330 casos relacionados a crimes ligados à violência de gênero, dos quais 253 eram acusações de estupro.

“Nossa investigação revela uma série de lacunas em que as vítimas ficam desamparadas durante o processo de responsabilização”, escrevem eles — um padrão que, segundo eles, indica um sistema de justiça “sobrecarregado pelo volume de casos sob a nova lei”, referindo-se à Lei de Crimes Sexuais e Violência Doméstica (SODV, na sigla em inglês), adotada em 2018 para reprimir a prevalência desses crimes.

Essas lacunas incluem:

  • As vítimas com muito medo de denunciar suas experiências ou sendo pressionadas a retirar seus depoimentos.
  • Casos desaparecendo das listas de processos ou sendo arquivados por erros processuais.
  • Juízes aplicando a lei incorretamente ou casos se arrastando por anos.

A seguir, Carolyn Thompson, então editora da série CCIJ, e Sotiris Sideris, editor de dados, compartilham um guia de 10 etapas para explicar como sua equipe encontrou os dados corretos, estabeleceu uma metodologia para interpretá-los e conseguiu expor uma falha sistêmica da justiça.

(LEGENDA) A editora da série CCIJ, Carolyn Thompson (centro), com o editor de dados Sotiris Sideris (à direita) e o editor da CCIJ Africa, Ajibola Amzat, no iMEdDIJF24. Imagem: Cortesia de Thompson

  1. Comece com uma hipótese bem definida

A investigação começou com uma suposição simples: “Gostamos de usar a seguinte abordagem: ‘Alguém está fazendo algo por um motivo’”, explica Thompson. No caso deles, a hipótese era de que o governo de Eswatini negligenciava a prevenção de casos de violência sexual por não aplicar as leis pertinentes, incluindo a Lei de Violência Doméstica e Sexual (SODV), e por não conscientizar a população sobre o problema. Para comprovar essa hipótese, eles precisavam identificar pontos que a provassem.

  1. Reuna informações: O que você sabe até agora?

No início de uma investigação, reúna todas as evidências que você já conhece e compile-as em um documento de guia. De acordo com ONGs como a Human Rights Watch e o UNFPA, mais de um terço das mulheres em Eswatini sofrerão alguma forma de violência sexual antes de completarem 18 anos. O time da CCIJ então considerou quais informações seriam necessárias para comprovar isso e por que os casos poderiam não resultar em condenações.

  1. Elabore um Mapa de Informações

Para encontrar as informações mais úteis para sua investigação, você precisa descobrir onde procurar. “Pense na hipótese”, aconselha Thompson. “Onde as informações seriam coletadas e onde estariam armazenadas?”

Informações relacionadas a crimes de violência sexual, por exemplo, poderiam ser registros médicos, boletins de ocorrência policial, dados sobre apoio à saúde mental ou até mesmo mídias sociais, onde as pessoas podem compartilhar suas experiências. No entanto, é importante selecionar criteriosamente as fontes de informação coletadas. “Nosso objetivo não é coletar tudo o que está na lista”, acrescenta Thompson. “Nosso objetivo é analisar os diversos locais onde os dados potenciais podem existir e, em seguida, decidir o que pode ajudar a contextualizar a reportagem”.

  1. Encontrar fontes de dados

Existem vários métodos para encontrar as fontes de dados necessárias. A maneira mais simples é pesquisar informações online. Neste caso, a equipe usou uma pesquisa online simples e personalizada, procurando pelo tipo de arquivo (PDF) e pelos termos “Eswatini”, bem como a palavra “tribunal”.

“Tivemos sorte porque encontramos um banco de dados público do Supremo Tribunal de Eswatini”, diz Sideris. No entanto, isso pode nem sempre ser o caso. Outras maneiras de encontrar uma fonte de dados podem ser extrair dados públicos da web (web scraping), acessar a dados confidenciais mediante pagamento, coletar de informações e criar seus próprios dados, enviar solicitações de acesso à informação (LAI) ou simplesmente conversar com especialistas para solicitar as informações.

Pesquisa no Google por filetype:pdf, Eswatini e tribunal. Imagem: Captura de tela, cortesia do CCIJ.

  1. Analisar, Classificar e Extrair os Dados

Após encontrar um banco de dados público com milhões de entradas, os repórteres precisavam encontrar uma maneira de analisar quais dados continham as informações mais úteis para sua investigação. Eles decidiram filtrar os dados com base em palavras-chave como “estupro” ou “agressão sexual” e usaram web scraping para acessar os dados. No entanto, Sideris desaconselha esse processo de seleção manual “porque descobrimos mais tarde que havia uma API que poderíamos ter solicitado”.

Extraindo os dados, Imagem: Captura de tela, Cortesia da CCIJ

Em vez disso, procure qualquer tipo de programa ou IA que possa ajudar a raspar os dados. Após a extração, a equipe criou uma planilha adicionando algumas informações relevantes, como a data do caso. Para arquivos inacessíveis, a equipe usou o Amazon Textract para poder adicionar o texto dos documentos ao seu conjunto de dados.

  1. Avalie os dados

Para conseguir avaliar os dados sem se perder, é preciso retornar à hipótese e refletir sobre o que se pretende comprovar. Qual é a sua hipótese e de que forma os dados podem ajudar a responder a essas perguntas?

“Identifique os dados a serem coletados e construa uma metodologia para ser consistente”, afirma Sideris. A equipe fez isso combinando pontos de dados simples com avaliações interpretativas, como se o caso envolve ou não uma sentença, por exemplo. “O ideal é construir dados claros e adicionar uma camada de interpretação combinando os resultados, com o objetivo de responder às perguntas da investigação”, acrescenta Thompson. Isso pode ser feito automaticamente em uma planilha se os dados forem simples (como usar o formato de data), manualmente se os dados forem interpretativos ou usando IA, que é muito mais rápida, se os dados forem semi-interpretativos.

  1. Desenvolva uma metodologia

A equipe decidiu usar o Chat GPT-4 para interpretar os dados. Para isso, precisaram escrever um roteiro detalhado que dava instruções claras sobre o que a IA deveria fazer.

“Uma metodologia ajuda de três maneiras”, explica Sideris. “Significa que todos estão alinhados para que todos os dados sejam preenchidos da mesma forma, que ela pode ser publicada para que outros possam revisar seus métodos e escolhas e que pode ser inserida em uma ferramenta de IA para garantir que ela entenda o que você deseja”. Mas ele também enfatiza que o processo de pensamento ainda deve ser feito pelo jornalista: “Use IA e automação como uma ferramenta ou filtro de pesquisa, não para interpretação”.

Detalhes do roteiro e da metodologia do Chat GPT-4 na galeria abaixo.

 

  1. Verifique seus métodos com especialistas durante a apuração — e antes da publicação

Lembre-se: somos jornalistas, não cientistas de dados. É sempre útil trabalhar com um especialista para verificar sua metodologia. Como Thompson observa, esses especialistas conhecerão contextos importantes que você pode ter perdido, saberão se existem pesquisas semelhantes, serão capazes de identificar padrões e — o mais importante — poderão dizer se você está simplificando demais ou interpretando errado algum dado.

  1. Verifique os dados manualmente

“Se você usa automação ou IA, nunca publique resultados sem confirmação manual”, alerta Thompson. Jornalistas nunca devem confiar totalmente na IA e sempre devem verificar novamente se há erros ou dados omitidos. “Se você usar uma ferramenta de IA, peça a ela para comprovar o que encontrou para facilitar a verificação dos fatos”, diz Thompson. “Às vezes, a verificação manual dos fatos é a melhor forma.” Em sua investigação, eles encontraram vários detalhes que o Chat-GPT4 havia deixado passar. Nenhum deles alterava suas conclusões, mas identificar os erros da IA ​​ajudou a fortalecer a reportagem. “O Chat-GPT4 é apenas uma ferramenta”, acrescenta Sideris. “E ele pode gerar alucinações [ uma resposta falsa ou enganosa], omitir informações ou faltar contextualização”.

Verificação dupla do Chat GPT-4. Imagem: Captura de tela, cortesia do CCIJ.

Verificações manuais de dados. Imagem: Captura de tela, cortesia do CCIJ.

  1. Identifique a história

Depois de analisar os dados e verificar se há erros, você pode pesquisar as histórias que seus dados podem contar. No entanto, você deve sempre refletir e questionar seus próprios preconceitos potenciais na interpretação dos dados, observa Thompson: “Muitas vezes, suas suposições baseadas em uma anedota não são precisas quando você vê o padrão”. Você pode usar tags como um filtro para entender os dados – e, novamente, pedir a um especialista para ajudá-lo a entender suas descobertas e fornecer o contexto que pode estar faltando.

Nesta investigação, a equipe do CCIJ conseguiu comprovar como os tribunais de Eswatini falham sistematicamente em fazer justiça às vítimas de violência sexual. Os jornalistas também utilizaram metodologia semelhante para reportar casos em Uganda, Zimbábue e Etiópia, onde investigaram a discriminação contra pessoas com dreadlocks, a relação entre casamentos infantis e afiliação religiosa, e casos de estupros usados como arma de guerra e envolvendo conivência militar.

Um conselho final que Sideris dá a outros colegas jornalistas é: “Publiquem seus métodos e descobertas para garantir a transparência”. Dessa forma, outros podem usar o conjunto de dados para pesquisas futuras, verificar e aprender com suas técnicas de investigação.

Nota do editor: Você pode encontrar o conjunto de dados completo aqui e registros judiciais digitalizados de vários outros países africanos aqui.


Sarah Ulrich é editora da GIJN em língua alemã, supervisionando a GIJN Deutsch em cooperação com a Netzwerk Recherche. Ela também trabalha como repórter investigativa. Seu trabalho se concentra em abusos de poder, exploração (trabalhista) e violência de gênero e de extrema direita.

 

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