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O jornalismo depende muito de entrevistas, e o jornalismo investigativo não é exceção. As investigações mais sólidas geralmente incluem múltiplas e extensas entrevistas. Desde os passos iniciais para confirmar um vazamento ou uma ideia de pauta, até entrevistas confrontativas com as principais fontes para apurar os fatos, o repórter investigativo muitas vezes precisa seguir diversas pistas para produzir uma matéria.

Por mais básico e repetitivo que o exercício possa parecer à primeira vista, entrevistar não é tão fácil quanto aparenta. Requer uma combinação de talento, persistência e técnicas bem pensadas. Os melhores entrevistadores são atenciosos, perspicazes e atentos a pistas importantes. Geralmente, utilizam uma variedade de conhecimentos, habilidades e uma preparação minuciosa.

Este capítulo examina vários tipos de entrevistas, abordagens e técnicas que, juntas, contribuem para a sensação de estar no caminho certo, seguidas pela pesquisa, a documentação e, finalmente — a história importante.

A entrevista: rotina diária ou necessidade?

Existem entrevistas e entrevistas. Para um apresentador de TV, uma entrevista pode ser informal ou descontraída. Para um repórter investigativo, a tarefa é totalmente diferente: toda entrevista é um momento de busca pela verdade. É um momento crucial durante o qual se pode facilmente perder uma oportunidade ou, se tudo correr bem, ser recompensado com uma revelação inesperada e importante.

Para jornalistas investigativos, entrevistar é uma questão de seguir pistas: onde uma resposta a uma pergunta específica leva, muitas vezes, a outra pergunta. Lembre-se: no jornalismo investigativo, aprendemos a não aceitar nenhuma declaração, resposta ou fato como verdade absoluta até que seja comprovado. Isso torna o papel do entrevistador investigativo uma tarefa desafiadora que, por vezes, pode se assemelhar a uma perícia judicial. Embora diferentes em seus mandatos, poderes, funções e abordagens, o repórter investigativo e o policial têm algo em comum: por meio de perguntas e respostas, ambos buscam obter a verdade ou estabelecer os fatos.

Ao realizar uma reportagem investigativa, o repórter precisa de entrevistas para obter mais informações: seja para confirmar ou refutar suas suposições, para verificar declarações ou alegações feitas por fontes iniciais, ou para confrontar fontes.

Portanto, ser capaz de controlar as interações envolvidas em qualquer entrevista e de se adaptar a diferentes cenários e personalidades é uma necessidade absoluta. Raramente conseguimos que as fontes nos revelem tudo o que sabem sem antes vencer sua relutância em falar. Aí reside a arte da entrevista e, para jornalistas investigativos, dominar essa habilidade é imprescindível.

Algumas entrevistas podem ser bem planejadas, com solicitações formais enviadas com bastante antecedência, por e-mail ou telefone. Em alguns países, inclusive na África, uma carta oficial pode ser necessária ao entrevistar um funcionário público ou um representante do governo.

Por vezes, as entrevistas podem ocorrer de forma aparentemente improvisada: isso acontece quando o repórter se depara quase “acidentalmente” com um entrevistado de difícil acesso. Em outras ocasiões, o repórter pode optar, por razões válidas, por “surpreender” o entrevistado e aparecer sem aviso prévio. As chances de sucesso nem sempre são garantidas, mas em alguns casos vale a pena tentar.

Um guia editado pela Investigative Reporters and Editors (IRE) descreve três tipos principais de perguntas/entrevistas, com base em dicas compartilhadas por Julian Sher, produtor do programa The Fifth Estate da CBC, em uma conferência realizada em Nova Orleans em 2016:

  1. Para obter informações
  2. Para obter emoções
  3. Para fazer com que as pessoas prestem contas de seus atos

Diversos fatores podem determinar o tipo de perguntas a serem feitas e, às vezes, os três podem ser combinados.

Preparação

Uma boa entrevista depende, antes de tudo, de preparação. A entrevista de um repórter investigativo não é exceção. Nesse caso, a preparação é ainda maior. Os temas abordados por repórteres investigativos são sensíveis, controversos, complexos e envolvem a descoberta da verdade, muitas vezes ocultada — ou, pelo menos, não revelada espontaneamente. A preparação inclui muita pesquisa sobre o histórico e o ambiente da pessoa entrevistada para que a investigação seja mais eficaz.

Pesquisa

Bons jornalistas investigativos são bons pesquisadores. Antes de qualquer entrevista ser conduzida, é fundamental conhecer todos os fatos (ou o máximo possível) sobre os eventos em questão.

Isso inclui procurar declarações ou posicionamentos anteriores da pessoa com quem você está conversando, incluindo alegações, se houver, contra ela. Você também precisará de um bom conhecimento do assunto central da investigação. Aprender um pouco sobre a vida social e os hobbies do entrevistado pode ajudar: conversar um pouco sobre futebol, música, livros ou lugares estrangeiros pode ser uma ótima maneira de quebrar o gelo.

Entrar na entrevista sem esse conhecimento enfraquece o entrevistador e pode permitir que a pessoa com quem está conversando assuma o controle da situação. Deveria ser o contrário. O entrevistador deve estar no controle durante todo o processo. Essa fase de pesquisa é ainda mais crucial em uma entrevista confrontativa, na qual o repórter investigativo busca estabelecer a verdade ou fazer com que a pessoa entrevistada admita algo nunca antes admitido, às vezes incluindo informações que o entrevistado pode ter tentado negar ou esconder do público.

Prepare-se para gravar e fazer anotações

Nenhum repórter investigativo deve conduzir uma entrevista, exceto em circunstâncias excepcionais, sem um gravador e um caderno de anotações. Alguns levam apenas um ou outro. Mas, para registrar tudo o que acontece em uma entrevista, ambos os dispositivos são necessários, mesmo com fontes amigáveis. Enquanto o gravador registra o que é dito, o caderno de anotações é essencial para registrar a comunicação não verbal, anotar pontos importantes, garantir que nenhuma pergunta seja esquecida na sequência e evitar problemas técnicos.

Em alguns países, obter o consentimento formal antes de gravar a entrevista é imprescindível. Uma vez obtido o consentimento, quanto mais discreto for o gravador, melhor. Isso pode deixar o entrevistado menos na defensiva.

Em algumas ocasiões, entrevistas que permitem aos repórteres coletar informações adicionais para contextualização podem ser conduzidas extraoficialmente. Esse tipo de entrevista geralmente é realizado nesse formato se uma fonte poderia estar em risco e poderia possuir informações relevantes relacionadas ao tema investigado. Se um jornalista concordou em conversar extraoficialmente com uma fonte, não será possível citá-la ou mencioná-la na matéria, a menos que o repórter entre em contato novamente com a fonte e haja um acordo para que a conversa seja registrada oficialmente.

Quem entrevistar, quando e por quê?

Existem muitos tipos de fontes em uma reportagem investigativa. No entanto, podemos tentar agrupá-las em categorias. Em cada categoria, as habilidades e as abordagens necessárias podem diferir ou, às vezes, se sobrepor.

Quem
Quando
Por quê
Comentários
Testemunha ou denunciante
Na fase inicial.
Para confirmar vazamentos e estabelecer fatos iniciais ou informações que demonstrem que existe uma história que vale a pena ir atrás.
Testemunhas e denunciantes devem ser tratados de forma diferente. Um denunciante pode ter um interesse oculto, enquanto uma testemunha é alguém que por acaso estava presente no local.
Fontes envolvidas na história
Uma vez que os fatos a serem investigados sejam estabelecidos, estes geralmente vêm acompanhados de listas de personagens envolvidos.
Estabelecer o envolvimento ou a responsabilidade deles, se relevante, esclarecer as alegações que fazem e também dar-lhes a oportunidade de responder a quaisquer alegações sérias feitas por outras fontes.
Este é o cerne das investigações; algumas dessas fontes podem precisar ser entrevistadas duas ou mais vezes em investigações complexas ou altamente sensíveis.
Especialistas
Frequentemente necessário para um repórter entender ou esclarecer uma questão que exige conhecimento especializado.
Esclarecimento de declarações feitas por outras fontes ou outras questões que possam ser relevantes para a sua investigação.
Em alguns casos, os especialistas podem interpretar os fatos de maneira diferente, o que pode levar o repórter a entrevistar ainda mais especialistas.
Executivos de empresas, funcionários do governo e outros detentores de poder
Ao final do processo (quando eles não são eles os investigados, eles também são bons de serem contatados no começo do processo de reportagem).
Normalmente, essas fontes são entrevistadas principalmente para determinar seu nível de conhecimento sobre o assunto, estabelecer responsabilidade delas ou a responsabilidade da instituição que lideram ou representam.
Jornalistas investigativos experientes evitam falar com essas fontes até terem informações suficientes para confrontá-las.

Se informadas com antecedência, elas podem usar sua influência ou poder para "abafar" a história.

Normalmente, após concluirmos a pesquisa e a preparação, nos casos em que a investigação resulta de um vazamento, iniciamos as entrevistas cara a cara com denunciantes (quando dispostos a falar), testemunhas ou qualquer fonte que possa fornecer os fatos iniciais sobre a história. Na maioria das vezes, essas fontes estão dispostas a falar, mas podem ter interesses pessoais que influenciam seus pontos de vista (particularmente comum no caso de alguns autoproclamados denunciantes). Geralmente, eles são entrevistados nos estágios iniciais da investigação, mas podem precisar de entrevistas subsequentes para esclarecer ou confirmar suas declarações ou alegações iniciais.

Após seguir um vazamento ou uma pista, o repórter pode encontrar muitas informações que contradizem declarações feitas por fontes no início da investigação. A entrevista inicial ajuda a delinear a história, enquanto a segunda ou terceira entrevistas são feitas para confirmar os fatos ou confrontar as fontes.

Nos casos em que não existam vazamentos desse tipo e a investigação se baseie em uma ideia de pauta, o repórter pode optar por começar pelas fontes mais amigáveis ​​ou por qualquer outra pessoa de fácil acesso, incluindo aquelas que tenham conhecimento comum sobre o assunto, mas que não estejam envolvidas na história.

Fontes envolvidas na história

Como as investigações visam revelar fatos ocultos, esta categoria raramente é uma lista final e definitiva: em uma investigação, o cenário mais provável é que uma fonte leve a outra, que leve a outra. Cada uma delas precisa ser entrevistada. O repórter pode ter o máximo de fontes possível para entrevistar. Uma vez que um nome é mencionado em uma matéria, é provável que o repórter precise entrevistá-lo.

Especialistas

Quando a história é complexa ou envolve um alto nível de compreensão ou conhecimento técnico, especialistas podem ser entrevistados para ajudar a esclarecer questões que podem ser difíceis para o repórter e para o público em geral. Advogados, cientistas, médicos e outros especialistas são potenciais colaboradores. Eles não estão envolvidos na história, mas sua expertise é necessária. Outros, que podem estar envolvidos na história, não serão entrevistados como “especialistas” devido a potenciais conflitos de interesse.

Pessoas em cargos de alto escalão

Autoridades governamentais, executivos de empresas e outros podem ser os últimos da lista de entrevistados. Geralmente, são entrevistados devido à sua responsabilidade ou nível de conhecimento sobre o assunto investigado. Às vezes, podem estar no centro da investigação. É sempre recomendável ter informações suficientes antes de solicitar uma entrevista com eles.

O cerne da questão: entrevistas para investigações

Uma vez concluído todo o processo acima, a parte essencial do exercício começa: encarar as fontes e realizar as entrevistas. Como os seres humanos têm atitudes e reagem de forma diferente em relação às situações, conduzir entrevistas pode ser difícil. A preparação, como mencionado anteriormente, pode ajudar, mas autoconfiança e algum conhecimento de psicologia humana e habilidades de comunicação interpessoal são necessários.

Entrevistas com testemunhas ou denunciantes pode ser relativamente fácil se eles confiarem no repórter, no senso de ética do repórter e no veículo de comunicação do repórter. No entanto, “fácil” não significa simples ou relaxado. O entrevistador precisa estar preparado para persuadir os entrevistados a fornecer informações precisas e baseadas em fatos, o que ajudará a avançar para a próxima etapa.

Ao conduzir uma entrevista, o repórter precisa começar com algumas perguntas fáceis, deixar o entrevistado se soltar e, em seguida, passo a passo, passar para perguntas mais difíceis.

As perguntas precisam ser preparadas e listadas com antecedência para garantir que nenhuma seja esquecida. Mas o repórter não deve segui-las à risca. Seguir o fluxo da “conversa” pode ser mais produtivo.

Dominar as técnicas de entrevista também inclui desenvolver um “bom ouvido” — uma grande capacidade de escuta. O respeitado escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez resumiu isso da melhor forma:

Sabemos o quão úteis são os gravadores para a memória, mas nunca devemos desviar o olhar do rosto do entrevistado, que pode expressar muito mais do que a sua voz, e às vezes até o oposto.

Ele acrescenta:

A maioria dos jornalistas deixa o gravador fazer o trabalho e, assim, acreditam estar respeitando os desejos da pessoa entrevistada ao transcrever suas palavras, palavra por palavra… Quando uma pessoa fala, ela hesita, divaga, não termina as frases e faz comentários insignificantes. Para mim, o gravador deve ser usado com o único propósito de gravar o material que o jornalista decidir usar posteriormente, da maneira que decidir e escolher, de acordo com sua forma de contar a história. (Tradução feita pelo autor deste capítulo; a citação original em francês pode ser encontrada aqui).

Em uma entrevista investigativa, especialmente quando se trata de entrevistas confrontativas, essa lição torna-se fundamental.

Uma vez compreendida a abordagem, o próximo passo crucial é formular as perguntas e saber como formulá-las. Perguntas abertas são, naturalmente, as mais indicadas na maioria das vezes. Contudo, em casos excepcionais, perguntas diretas e específicas podem ser mais úteis. No entanto, não é aconselhável utilizá-las no início de uma entrevista, pois podem encerrá-la prematuramente, por exemplo, se o assunto for uma situação embaraçosa ou comprometedora para o entrevistado.

Conclusão

Entrevistar é uma tarefa complexa para repórteres, especialmente para repórteres investigativos. Ensinar (ou aprender) técnicas de entrevista não pode ser um exercício teórico, pois elas se baseiam em diversos conhecimentos e experiências. Para ter sucesso nessa tarefa, autoconfiança e um preparo cuidadoso são necessários. O resto vem com a experiência, aprendendo na prática e com a troca de experiências com colegas. Portanto, sempre que possível, peça conselhos a um colega de confiança, principalmente se você for iniciante no jornalismo investigativo.


Hamadou Tidiane Sy é um jornalista senegalês experiente e um apaixonado formador de jornalistas. É o fundador da premiada plataforma de notícias online Ouestaf News, especializada em investigações e reportagens aprofundadas. Residente em Dakar, está ajudando a formar a próxima geração de jornalistas africanos como fundador e diretor da E-jicom, uma renomada escola de jornalismo, comunicação e mídia digital. Tidiane integra o conselho de importantes organizações de mídia africanas, como a rádio West Africa Democracy, sediada em Dakar, e a Africa Check. Reconhecido como inovador social na área de “Notícias e Conhecimento” pelas Fundações Ashoka e Knight. Em 2021, recebeu o “Prêmio de Liderança em Mídia” no Fórum Rebranding Africa, em Bruxelas.

 

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