Repórteres lutam para fazer jornalismo investigativo na Guatemala

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jornalismo investigativo na Guatemala

A equipe da Prensa Comunitaria Kilómetro 169 – redação que tem o nome em homenagem às vítimas do massacre de indígenas na Guatemala. Imagem: captura de tela

Em um ambiente de crescentes restrições ao acesso à informação pública, agressões constantes por parte do presidente contra jornalistas e um alto nível de impunidade em relação a crimes contra profissionais da imprensa, meios digitais na Guatemala se esforçam para fazer e manter um jornalismo investigativo e aprofundado. Para isso, usam diferentes ferramentas e métodos de trabalho: longas narrativas, dados, jornalismo comunitário e colaborações com artistas.

Segundo a Repórteres Sem Fronteiras, a Guatemala ocupa o 116º lugar no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2021. A ONG afirma que a violência endêmica, o crime organizado, a corrupção e a impunidade tornam o trabalho de reportar no país “extremamente difícil” e aponta que assassinatos de jornalistas são “muito frequentes”.

Organizações como a Human Rights Watch e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) alertaram, em comunicado no início do ano, que o presidente Alejandro Giammattei tem atacado a imprensa com “uma retórica beligerante e acusações falsas”, desde o início do seu mandato, em janeiro de 2020. As organizações também destacaram que o governo tem restringido o acesso a informações públicas, o que se agravou no contexto da pandemia.

Mais recentemente, em maio, a entrada em vigor da chamada “Lei das ONGs” na Guatemala foi condenada por diversas entidades internacionais, incluindo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O conjunto de medidas dá ao governo um amplo controle dessas organizações, incluindo associações de imprensa e meios jornalísticos sem fins lucrativos, afirmou o CPJ. Além disso, a lei possibilita que o Estado, por meio de uma decisão unilateral, feche uma ONG por considerar que a organização “violou a ordem pública”.

Diante desse contexto, a LatAm Journalism Review (LJR) falou com representantes de três meios digitais na Guatemala, que contaram os principais desafios para fazer jornalismo investigativo no país e também como estão inovando e investindo em novas estratégias narrativas e de negócios.

Agencia Ocote

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Julio Serrano, Alejandra Gutiérrez Valdizán (meio) e Lucía Reinoso, da Agência Ocote. Imagem: captura de tela

Os sócios fundadores da Agencia Ocote passaram dois anos planejando o novo meio digital, inclusive elaborando o plano estratégico e de sustentabilidade, até o seu lançamento, em 2019.

Segundo Alejandra Gutiérrez Valdizán, cofundadora, coordenadora geral e diretora editorial de Ocote, a motivação de criar o veículo partiu de identificar necessidades específicas do público e ter um espaço para explorar narrativas transmídia.

“Uma questão que sempre esteve presente era essa necessidade de que nós, mulheres, sejamos fundadoras e, principalmente, diretoras de meios de comunicação, porque acreditamos que não se trata apenas de ter um enfoque de gênero e [tratar de] questões voltadas às mulheres, mas também mudar algumas dinâmicas dentro das redações de jornalismo”, disse Gutiérrez à LJR.

Dos fundadores, três continuam na Ocote: um homem, Julio Serrano Echeverría, que é artista audiovisual e poeta, e duas mulheres, Lucía Reinoso Flores, especializada em produção audiovisual e em comunicação digital, e Gutiérrez, que é jornalista.

O veículo, cujo foco é o jornalismo de profundidade, tem alguns temas prioritários de cobertura, que chamam de linhas programáticas. Uma delas é mulher e diversidade e outra trata de meios de comunicação, que inclui acompanhar e fazer perfis de jornalistas ameaçados no país. Essa linha programática também engloba o projeto de fact-checking de Ocote, chamado Fáctica, que participa de redes de fact-checking como a Latam Chequea.

Outro tema importante é a cultura, que a agência entende não apenas como entretenimento, mas como “uma explicação social e ato político”. Por fim, há uma linha programática sobre meio ambiente e outra sobre memória histórica e Justiça, porque, segundo Gutiérrez, o país vive em uma “sociedade do pós-guerra”.

“Olha, na Guatemala houve uma guerra de 36 anos e ainda existem julgamentos transicionais, por exemplo, e acreditamos que essa cobertura ainda é importante, porque parece que a questão já passou, mas não”, explica ela.

Além disso, Gutiérrez destaca a participação de Ocote no Guatemala Leaks, uma rede de meios que faz um “jornalismo investigativo mais clássico sobre corrupção e impunidade”, bem como de projetos de cobertura sobre a COVID-19, como o programa de Salud con Lupa, um veículo de ciência e saúde.

O plano de Ocote é ampliar, aos poucos, as linhas programáticas. Esses temas foram escolhidos, afirma Gutiérrez, não só por serem importantes e do seu interesse, mas também porque eles acreditam ser áreas “em que a imprensa tradicional ou outros meios não estão cobrindo com a profundidade ou periodicidade que se requer”.

Um diferencial de Ocote, conta Gutiérrez, é uma abordagem multidisciplinar, em que experimentam com a colaboração entre jornalismo, ciências sociais e as artes. Segundo ela, os métodos clássicos do jornalismo investigativo e de profundidade têm um peso maior nos trabalhos, mas a agência busca sempre apresentar o conteúdo de uma forma diferente.

“Lançamos um especial regional no ano passado, coordenado por Ocote, que fizemos com El Faro [de El Salvador] e ContraCorriente [de Honduras], e a maior parte era jornalismo de dados e reportagens puras e duras sobre violência contra mulheres, mas havia outra parte em que os artistas também faziam uma releitura do trabalho jornalístico, eles faziam um trabalho visual sobre isso”.

Para Gutiérrez, os piores ataques contra a redação aconteceram em retaliação a investigações sobre temas relacionados a mulheres e assédios. Foram ameaças, intimidações e tentativas de descredibilizar os jornalistas e o meio vindas, muitas vezes, de contas anônimas. “Existem grupos de desinformação, grupos muito conservadores na Guatemala […] que, bom, também estão de olho em nós”.

Ao mesmo tempo, ela destaca que são os jornalistas comunitários, que trabalham fora da capital, os que correm maior risco no país. “Eu não ousaria nos comparar.”

Após completar dois anos de funcionamento, a Ocote tem, atualmente, uma redação de 12 pessoas. O meio se financia, principalmente, com fundos doados por organizações e fundações nacionais e internacionais. Além disso, estão investindo em projetos editoriais e em viabilizar contribuições financeiras por parte de leitores e já mantêm, desde 2018, uma agência que vende serviços de comunicação e produção.

Agencia Prensa Comunitaria Kilómetro 169

agência Prensa Comunitaria Kilómetro 169 surgiu em 2012 e recebeu esse nome em referência a um massacre de indígenas por forças de segurança que ocorreu no mesmo ano, no departamento de Totonicapán, conta o sociólogo Francisco Simón Francisco, investigador e jornalista do veículo. “Prensa Comunitaria deu esse outro nome, quilômetro 169, em homenagem ao massacre que ocorreu no km 169”, explicou ele, em entrevista à LJR.

O veículo, com foco comunitário e multidisciplinar, é formado por uma equipe de indígenas e mestiços, de herança étnica mista. Quinze pessoas integram a equipe fixa, mas há um total de 45 correspondentes nos departamentos do país, entre jornalistas, acadêmicos e cientistas sociais. Para se financiar, realizam consultorias, vendem serviços de comunicação e participam de editais de fundos de filantropia e bolsas.

A sede é na capital, e os correspondentes ficam espalhados em vários departamentos do país, principalmente nas áreas rurais e territórios indígenas.

“Vivemos nas comunidades, somos parte dos acontecimentos, somos sujeitos dos acontecimentos [que reportamos]”, disse Simón.

Segundo ele, o veículo decidiu cobrir a crise humanitária decorrente da “imposição do modelo extrativista” no país e, junto com isso, temáticas relacionadas ao feminismo, povos indígenas e migração.

jornalismo investigativo Guatemala

Francisco Simón Francisco, repórter investigativo da Prensa Comunitaria. Imagem: captura de tela

“Nosso interesse é mostrar os esforços que realizam e as situações ameaçadoras por que passam esses povos em seus territórios, como a dinâmica de expropriação por hidrelétricas, mineração e monocultura”, conta ele, que começou a trabalhar na Prensa Comunitaria em 2014.

Além disso, eles reportam sobre a crise humanitária causada pelos furacões Eta e Lota, que atingiram o país no ano passado, e temas relacionados à liberdade de imprensa e de expressão. Responsável pelo Programa de Autocuidado e Proteção a Jornalistas Comunitários de Prensa Comunitaria, Simón afirma que seu objetivo é “dignificar esse trabalho comunitário, com reconhecimento social e legal”. Isso porque, de acordo com ele, não há um marco legal que regule a profissão do jornalista comunitário, que sofre com racismo e discriminação, inclusive com perseguição judicial e criminalização.

“Na Guatemala, embora seja verdade que existam leis que garantem e defendem a liberdade de imprensa e expressão, não existe nenhuma lei que reconheça o trabalho realizado por jornalistas ou comunicadores nas províncias. Muitas vezes a própria sociedade não os reconhece”.

Por isso, ele afirma ainda que o jornalista comunitário está mais exposto a riscos. Simón diz que os colaboradores da Prensa Comunitaria já foram vítimas de agressões físicas, censura e ameaças.

“O risco, pelo menos para nós que praticamos jornalismo com métodos de ciências sociais, é alto, porque nossas investigações são de longo prazo e com trabalho de campo. Visitamos [as comunidades] e lá nos encontramos com o crime organizado, tráfico de drogas e os coiotes”, explica ele.

Simón afirma que, muitas vezes, os ataques contra jornalistas são cometidos por autoridades e funcionários públicos.

“Um promotor do Ministério Público obrigou [uma jornalista] a apagar algumas fotos que ela tirou de uma situação de assassinato na comunidade. Ou seja, a restrição ao exercício do jornalismo não é feita apenas pelas autoridades locais, pelo governo, mas também pelo juiz, pelo procurador”, contou.

No-Ficción

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A equipe editorial da No-Ficción. Imagem: captura de tela

O meio digital No-Ficción começou a ser planejado em 2017 e foi lançado no ano seguinte por cinco jornalistas, que tinham passado pelo veículo Plaza Pública e estavam trabalhando como freelancers. A ideia, segundo Oswaldo J. Hernández, jornalista e cofundador do No-Ficción, era ter um enfoque coletivo, que evitasse as armadilhas do ego jornalístico.

“Muitos meios de comunicação são unipessoais, ou seja, só o diretor ou diretora se destaca, o nome dele é o que aparece, e quando algo acontece com o diretor, todo o projeto desmorona”, afirmou Hernández à LJR.

A proposta do coletivo era preencher um vazio informativo. Hernández diz que, na Guatemala, os meios tradicionais cobrem a agenda diária, e os meios digitais alternativos lutam para fazer essa mesma cobertura, mas com uma equipe menor. O coletivo acreditava, então, que faltava uma análise estrutural e, assim, faltava “contar bem o país”.

“O que nos propusemos foi partir da ideia: não vamos contar para vocês o que está acontecendo, mas por que está acontecendo, por que chegamos a essa crise conjuntural. A gente vê que a Guatemala passa de crise em crise, de escândalo em escândalo, mas ninguém conseguia dar sentido a isso, porque quando você lida com esse cenário, você tem informações dispersas na mídia tradicional, sem um sentido lógico”, afirma.

E, para contar bem o país, No-Ficción aposta em três aspectos: a narrativa, a investigação e os dados, que é o slogan do coletivo. Hoje o veículo conta com dez profissionais e se mantém por meio de fundos nacionais e internacionais.

No-Ficción foca a sua cobertura em temas como transparência e corrupção, crime organizado e justiça, meio ambiente, interculturalidade (diversidade de culturas na América Central) e serviços públicos – que inclui direitos humanos, saúde, educação, entre outros.

De acordo com Hernández, um dos momentos mais tensos, em termos de ataques, foi quando receberam intimidações de dirigentes esportivos, quando estavam investigando a corrupção no setor. Ele adverte que os jornalistas não devem “se vitimizar” e diz que, na sua redação, eles tomam certos cuidados, como melhorar a segurança digital e investir em parcerias com organizações que apoiam defensores de direitos humanos.

As alianças, segundo ele, servem para aumentar a influência e incidência do meio entre outros países da região, porque, ao se tornarem mais conhecidos, se sentem mais protegidos. Ao mesmo tempo, a rede regional de meios pode ajudar a encontrar um abrigo em outro país, caso algum jornalista precise sair da Guatemala de forma emergencial.

Hernández conta que se preocupa com grupos chamados pela Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG), das Nações Unidas, de “redes político-econômicas ilícitas”.

“Um fenômeno na Guatemala é que os corpos ilegais e os aparatos de segurança clandestinos que trabalhavam na inteligência do Estado na década de 1980 ainda persistem hoje. Já recebemos intimidações desses grupos … São um corpo paralelo clandestino […], são funcionários do Estado, mas ao mesmo tempo têm suas confrarias fora do Estado com advogados, empresários e com todas as engrenagens, inclusive o tráfico de drogas”, conta.

Hernández afirma que esses grupos têm o hábito de fazer fichas dos jornalistas e que os nomes dos profissionais de No-Ficción costumam aparecer nessas listas.

Além da segurança, Hernández cita a falta de transparência por parte das autoridades e funcionários públicos como uma das dificuldades para fazer jornalismo investigativo na Guatemala. Segundo ele, recentemente, os pedidos de informação feitos seguindo a lei de acesso não estão mais sendo cumpridos. Os dados até são enviados, mas demoram muito.

“Sim, entregam a informação, mas te cansam, te esgotam, e você até precisa entrar com recursos legais para ver se te entregam”.

Para ele, houve uma piora na transparência com a chegada de Giammattei ao cargo de presidente. “Há uma reticência maior dos funcionários para entregar informação”.

Hernández menciona ainda a lei das ONGs como uma ameaça e afirma que o país está vivendo um retrocesso, após anos de avanço com a CICIG. De acordo com ele, esse período de luta contra a corrupção foi “uma primavera”, na qual “até o presidente teve que renunciar” e “foi possível atingir o poder tradicional”.

No entanto, ele afirma que esses setores se articularam em um contra-ataque.

“Nesse momento, eles cooptaram o Tribunal Constitucional, […] o Supremo Tribunal de Justiça e as câmaras de recurso, o Congresso da República e o Poder Executivo, a Presidência. A dificuldade que temos como jornalistas é enfrentar aquele monstro que se está criando e que luta pela impunidade e pelo declínio de toda credibilidade democrática, e eles nos negam documentos e negam fontes”.

Hernández afirma que, “quando um Estado se torna autoritário”, há um “campo fértil para reportagens investigativas”, mas isso também preocupa pela segurança dos jornalistas.

“Estamos vendo um sistema autoritário que está se desenvolvendo gradativamente, não é como em El Salvador, que já é evidente, mas na Guatemala está ocorrendo gradativamente. Sim, notamos que o Estado está se articulando de forma preocupante”.

Este artigo apareceu pela primeira vez na LatAm Journalism Review em 16 de junho de 2021 e está republicado aqui com permissão. Esta versão foi editada.

Recursos Adicionais

Sob ataque: reportagens e investigações corajosas do site salvadorenho El Faro

Como os meios de comunicação da América Latina estão colaborando nas investigações do COVID-19 (inglês)

Como investigar feminicídio: um guia da GIJN


Marina Estarque é uma jornalista brasileira que vive em São Paulo. Trabalhou em veículos de notícias brasileiras como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Dia. Foi correspondente no Brasil para a emissora internacional da Alemanha, a Deutsche Welle, e repórter de rádio para a DW África na Alemanha.

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