A repórter investigativa Martha Mendoza lidera um painel da GIJC25 sobre a indústria global de golpes. Imagem: Samsul Said, Alt Studio para GIJN
“Levante a mão se você já foi abordado por um golpista de alguma forma”, disse Martha Mendoza, repórter investigativa da Frontline e moderadora da sessão “Scams and Scammers” (Golpes e Golpistas) durante a 14ª Conferência Global de Jornalismo Investigativo (GIJC25). A maioria dos participantes levantou a mão.
“Agora, virem-se para a pessoa ao lado e contem como foram abordados por um golpista”, acrescentou ela, e o murmúrio de histórias preencheu a sala.
As autoridades policiais, os governos, as plataformas de mídia social e até mesmo a maioria das redações não se comprometem totalmente a combater o crescente flagelo dos golpes online, mesmo quando as fraudes estão se espalhando em pé de igualdade com o tráfico de drogas e causam sérios danos financeiros e emocionais.
Mas jornalistas como Lian Buan, repórter investigativa sênior da Rappler, Emmanuel K. Dogbevi, fundador e editor-chefe do Ghana Business News, Paul Radu, cofundador e chefe de inovação do OCCRP, e Mendoza estão usando jornalismo de dados, mapeamento, denunciantes, trabalho disfarçado e métodos tradicionais de reportagem para revelar uma atividade criminosa que, de acordo com a Global Anti-Scam Alliance, desvia US$ 1,03 trilhão por ano em todo o mundo.
“E se você pensar na falta de restrições às criptomoedas combinada com o rápido desenvolvimento da IA, o rumo que esses golpes estão tomando é bastante assustador”, observou Mendoza.
Detectando golpes
Quando, de repente, houve um aumento repentino de doutores em Gana, e empresários com dinheiro ou conexões políticas começaram a insistir em ser chamados de “doutores”, Dogbevi percebeu que algo estava errado.
“Eles vão a eventos para palestrar, e todos os apresentam como ‘Doutor Fulano de Tal’, mas eles não transmitem aquela sensação de alguém com um doutorado de verdade, então decidi investigar”, disse Dogbevi.
Depois que um conhecido revelou o nome da tal universidade onde teria recebido o doutorado, Dogbevi encontrou o e-mail e o endereço físico online. Mas uma busca no Google Maps Street View revelou que, em vez de uma instituição de ensino superior, o endereço mostrado era apenas um lixão em Londres. Investigando mais a fundo, ele entrou em contato com a empresa por e-mail perguntando como poderia obter um doutorado e recebeu uma resposta entusiasmada com uma lista de preços e títulos, e uma oferta para obter um doutorado após participar de um seminário de marketing de uma semana em Dubai.
Depois que a equipe de Dogbevi revelou o golpe, o Ministério da Educação de Gana anunciou medidas.
Algumas dicas úteis:
- Confie em seus instintos: embora também possamos ser vítimas, os repórteres investigativos geralmente têm um olhar aguçado para detectar as pequenas incongruências que são os sinais reveladores de um golpe. É por isso que os golpistas tentam atingir os mais vulneráveis da sociedade — os idosos, os doentes, os solitários.
- Puxe o fio. Encontre os endereços deles com um software de mapas e faça buscas na web por quaisquer nomes que encontrar. Em seguida, entre em contato, converse com alguém e talvez finja ser um cliente, mas mantenha-se seguro: não use números, endereços de e-mail ou IPs rastreáveis.
Para detectar golpes, Paul Radu, do OCCRP, também sugere que você se faça as seguintes perguntas:
- A empresa faz promessas de investimento irreais?
- Existem táticas de venda agressivas que insistem para que você faça pagamentos ou transfira dinheiro — ou assuma compromissos rapidamente?
- Os corretores estão usando nomes e identidades falsas?
- As empresas de investimento que alegam ser regulamentadas são, na verdade, sem licença?
- Depois que alguém investe fundos, encontra dificuldades para sacar seu dinheiro?
- Existem métodos complexos de movimentação de dinheiro?
- O processo exige que você ignore os sistemas de detecção de fraudes?
- Você é obrigado a usar apenas bancos digitais e criptomoedas?
Se a resposta a alguma dessas perguntas for “sim”, investigue mais a fundo. Você pode estar prestes a desvendar um golpe.
Expondo estruturas de fraude
Depois de ter certeza de que detectou um golpe e de ter coletado as informações iniciais, é hora de determinar o alcance da estrutura. Um golpe comum pode ser operado por grandes organizações transnacionais ligadas a sindicatos criminosos, que envolvem outros tipos de criminalidade, como lavagem de dinheiro, fraude, corrupção política, tráfico de pessoas e trabalho forçado.
Mendoza descreveu complexos vigiados em Mianmar que se parecem com parques empresariais, com centenas, milhares ou até dezenas de milhares de pessoas realizando golpes por telefone e online com servidores conectados à Starlink. Trabalhadores do Sudeste Asiático com domínio do inglês são enganados para trabalhar em TI, depois contrabandeados para Mianmar, e sua renda, que geralmente vem de vítimas de golpes, é gasta principalmente dentro do mesmo complexo — em lojas e com profissionais do sexo que também são vítimas de tráfico.
Assim como acontece com outros crimes, os golpes se intensificam rapidamente. Criminosos de pequeno porte podem descobrir em breve que não conseguem operar sem ceder a uma quadrilha maior, a um criminoso mais poderoso ou sem precisar de dinheiro de “investidores anjo” clandestinos para levar seus golpes para o próximo nível.
As operações de golpes também podem estar ligadas a políticos de alto escalão. Lian Buan, do Rappler, descreveu como Alice Leal Guo, uma mulher chinesa que se passava por filipina, administrava um centro de golpes em rápido crescimento, uma Operadora de Jogos Online das Filipinas (POGO, na sigla em inglês), a partir de uma cidade onde era prefeita. “Quando me designaram para cuidar da POGO, eu queria saber quem no governo estava envolvido. Sou muito cética nesse sentido. Sempre acho que há alguma pessoa poderosa por trás disso”, disse Buan.
Suas reportagens revelaram ligações entre a POGO e o governo Duterte e, em um raro exemplo de responsabilização — por um crime com níveis alarmantemente altos de impunidade — Leal Guo foi condenada à prisão perpétua por tráfico de pessoas.

Lian Buan, da Rappler, discute sua investigação sobre as ligações de uma operação fraudulenta com o governo filipino em um painel da GIJC25. Imagem: Samsul Said, Alt Studio para GIJN.
Aqui estão mais dicas de Buan:
- O mundo dos golpes é obscuro — então tente conversar com pessoas suspeitas. Talvez alguém esteja buscando redenção e possa te dar algumas dicas e te apresentar a outras pessoas, mas não acredite totalmente em suas narrativas. Verifique os fatos e confirme as informações.
- Elabore uma linha do tempo de como as operações fraudulentas evoluem e compare-a com as políticas e declarações de autoridades públicas de alto escalão sobre o assunto. As autoridades podem dizer uma coisa, mas fazer outra. Nas Filipinas, enquanto o então presidente Rodrigo Duterte declarava guerra ao jogo online, seu governo concedia um número sem precedentes de vistos para trabalhadores de POGOs e flexibilizava as regulamentações. Outro exemplo: O governo de Mianmar recentemente alardeou sua campanha para demolir o notório complexo fraudulento de KK Park, mas, na realidade, o esforço parece ser, em grande parte, uma estratégia de relações públicas para efeito de fachada.
- Tente comparecer a audiências legislativas e judiciais sobre fraudes e converse com os assessores, promotores, investigadores e assistentes envolvidos. Sua chance pode surgir no final das sessões, quando a maioria dos observadores e jornalistas já tiver ido embora. Buan se apresentou como investigadora, não como repórter, e obteve informações e documentos valiosos.
- Entre em contato com investigadores em instituições supervisoras, como a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC). Eles podem se solidarizar com seu trabalho e apoiá-lo.
- Adicione todos os documentos ao Google Pinpoint para que até mesmo arquivos JPG possam ser pesquisáveis.
- Se você for pessoalmente a um local suspeito de fraude, tenha mais cuidado ao fotografar documentos do que as instalações em si — as imagens oficiais já terão registrado isso.
- Acompanhe a história. Quando a história inicial sobre a POGO perdeu força, Buan compareceu sem ser convidada à cerimônia de encerramento de um centro de POGO e conseguiu gravar que o estabelecimento pertencia ao Secretário de Justiça, entre outros funcionários atuais e antigos. Isso confirmou sua suspeita de que figuras políticas poderosas estavam por trás das operações.
- Coopere com outros veículos de comunicação. Buan obteve informações e fontes úteis fora das Filipinas trabalhando com o OCCRP.
Paul Radu, do OCCRP, destacou os desafios de investigar golpes que operam como redes criminosas muito amplas e a importância da colaboração na reportagem sobre esses golpes: “É preciso uma rede para combater outra rede”, explicou. E para entender como essa rede é estruturada e operada, ele sugeriu pensar como um criminoso.
Perguntas para orientar sua reportagem:
- De que você precisaria para coletar informações sobre possíveis vítimas? Talvez você precise que pesquisadores de OSINT (Inteligência de Fontes Abertas) façam uma lista das pessoas mais vulneráveis ao seu golpe. Por exemplo, pessoas que estão de luto por entes queridos e que podem ter comprometimento cognitivo ou serem vulneráveis à exploração emocional.
- Que infraestrutura técnica e física, e quais trabalhadores com que formação e habilidades você precisa? É necessário monitoramento 24 horas por dia? E que tipo de acesso você precisaria a mercados clandestinos ou transações ilícitas?
“Para os criminosos, isto é um negócio, e o crime é uma mercadoria. Eles podem comprar pacotes para cometer este tipo de crimes no mercado negro, como identidades roubadas, perfis falsos online e malware”, disse Radu.
Um ponto crucial: Uma vez que os criminosos estabelecem centros de aplicação de golpes, eles começam a ganhar muito dinheiro e precisam lavar o dinheiro e aceder a outros sistemas criminosos. Em um negócio em rápido crescimento, eles irão precisar que a polícia e os políticos façam vista grossa, e se expandirem, precisarão disso em mais do que um país, e uma pequena operação se tornará uma rede criminosa como a que o OCCRP expôs com os seus parceiros na sua investigação transnacional, Scam Empire, um esforço colaborativo de dezenas de parceiros de mídia que investiga o coração desta indústria obscura.
Como tornar suas investigações de fraudes mais impactantes
Mesmo que os dados sejam financeiros, as histórias são humanas. Por trás de cada golpe, pode haver uma pessoa que sofreu abuso psicológico, talvez até tortura, e cujo dinheiro, às vezes sua aposentadoria ou as economias de uma vida inteira, foram roubados por meio de chantagem ou enganação.
Os palestrantes incentivaram os repórteres presentes a usar sua cobertura para exigir melhores mecanismos de controle e responsabilização de governos, empresas de tecnologia e instituições que facilitam a atuação de golpistas por meio de apoio comercial direto ou regulamentações e políticas excessivamente frouxas. Além disso, a pressionar por operações de apreensão de bens que possam restituir os fundos perdidos pelas vítimas. Em muitos casos, as autoridades sabem ou podem descobrir onde esses bens estão.
Se um número suficiente de veículos de comunicação coordenar uma divulgação mundial simultânea de reportagens que abalem a opinião pública e o discurso da mesma forma que os Panama Papers, talvez as autoridades policiais, os legisladores e as empresas sejam forçados a agir, e a responsabilização chegue a um império criminoso universal.