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Investigando o Crime Organizado – Capítulo 9: Estados mafiosos e cleptocracias

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Este capítulo, focado em estados criminosos e corruptos, foi escrito por Drew Sullivan, fundador e editor do Projeto de Jornalismo sobre Corrupção e Crime Organizado (OCCRP), uma rede global de jornalistas investigativos que expõe crime e corrupção para que o público possa cobrar a prestação de contas e punição dos envolvidos nos casos denunciados.

Quando nos referimos a “estados mafiosos”, estamos falando de um governo que, ele próprio, é uma empresa criminosa. Essas pessoas que governam o estado têm participação em tudo e usam a violência para dar suporte ao seu controle – atributos que associamos à máfia.

É importante fazer uma distinção entre estados mafiosos e cleptocracias. Os próprios estados mafiosos são bastante raros. Já as cleptocracias – governo por roubo, com corrupção generalizada – são muito comuns. As cleptocracias são a maioria no mundo em desenvolvimento. Mas provavelmente existem apenas seis ou sete estados mafiosos, no sentido de que sua missão é basicamente ser uma organização parecida com a máfia.

Os estados mafiosos incluem Kosovo e Montenegro. Você poderia argumentar que a Rússia é um estado mafioso – embora a Rússia provavelmente esteja em uma classe própria. O mesmo para a Guiné Equatorial. A Venezuela é um estado mafioso, porque seus oficiais não estão mais interessados em dirigir o governo. A elite política e os militares gastam sua energia não em melhorias na segurança ou na educação, mas abrindo contas offshore e negócios de drogas. Outros candidatos ao título são Malta e México.

Cleptocracias, por outro lado, estão em todo país onde a democracia não é forte, e isso é grande parte do mundo. A maior parte da África é composta de autocracias, por exemplo. Os votos são manipulados, as pessoas são subornadas. É muito mais um sistema de patrocínio. O Azerbaijão, por exemplo, é uma cleptocracia. É um governo autocrático e corrupto. Eles reprimem as pessoas, mas a maior parte do dinheiro roubado é para controlar outras pessoas, de modo que não possam representar uma ameaça para a família governante. Eles roubam tudo, não porque precisam de mais dinheiro, mas simplesmente porque não querem que ninguém mais tenha dinheiro suficiente para se opor a eles.

O verdadeiro problema é quando ocorre a captura de estado, ou seja, quando a tomada de decisão do poder é guiada por interesses próprios. A questão é: o povo tem o poder de expulsar os vagabundos? Se não tiver, então essencialmente existe a captura de estado e provavelmente este está mais próximo da autocracia e da cleptocracia. Mesmo onde há instituições democráticas – em lugares como a Polônia e a República Tcheca – os países estão retrocedendo.

A chave para entender a operação dos estados mafiosos – e expô-los – é seguir o dinheiro e os recursos. Os recursos naturais de uma nação são basicamente coisas que têm valor por si só, então, quando um depósito mineral é explorado ou quando uma árvore é cortada, isso tem valor. Os recursos naturais são uma indústria que você deve investigar, porque são a única coisa que esses autocratas – ou os estados mafiosos – podem monetizar.

Em muitos aspectos, investigar um estado mafioso é mais fácil do que investigar um cartel do crime. Porque você ainda tem registros estaduais, documentos, licitações, empresas – você tem informações. Um estado é uma entidade mais transparente do que uma gangue do crime organizado. E você monta a hierarquia da organização começando do topo, assim como faria com uma gangue. No entanto, muitas vezes existem redes informais dentro dos governos que são mais importantes do que a estrutura oficial. Então você descobre as pessoas que são mais importantes, olha quem está ficando rico, quem tem a casa mais bonita, quem está morando perto do presidente no novo subúrbio chique que eles criaram.

Este é um campo de trabalho, e você tem que coletar pacientemente todas as informações que puder encontrar. Usamos um sistema de gestão de conhecimento para conectar todos os dados que têm interação com outros softwares. Então você segue o dinheiro.

Estudos de caso

Montenegro

Montenegro é um exemplo clássico de estado mafioso. É um país pequeno – apenas 600.000 pessoas – e é dirigido por alguém cujo primeiro emprego na vida foi ser primeiro-ministro, Milo Đukanović. Ele tem laços estreitos com o crime organizado por meio de seu irmão, eles começaram no comércio ilegal de tabaco, e o estado estava participando ativamente das transações. Com o tempo, descobrimos os mecanismos que ele estabeleceu para fortalecer essa corrupção. Đukanović, já primeiro-ministro, criou um banco para sua família e começou a despejar enormes quantias de dinheiro do governo na instituição e então criou regras que obrigavam outras pessoas, se quisessem fazer um negócio, a fazê-lo por meio desse banco. Ele começou a emprestar o dinheiro do banco para si mesmo, seus amigos e o crime organizado. Quando o banco faliu, ele o socorreu com dinheiro dos contribuintes.

investigando estados mafiosos

Imagem: Captura de tela, Insight Crime

Venezuela

A essa altura, a tomada indiscriminada do controle da Venezuela por interesses criminosos está amplamente documentada. Acusações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, investigações da mídia e estudos acadêmicos mostram um governo crivado de crime organizado nos escalões mais altos. Mais de 100 oficiais venezuelanos – incluindo membros seniores do regime de Nicolás Maduro – se envolveram em ações criminosas como contrabando de combustível, venda de alimentos e remédios no mercado negro e tráfico de cocaína. Os cofres do estado, relata a InsightCrime, “foram pilhados em escala industrial”. Acrescente a isso o controle estatal de milícias armadas e gangues criminosas, e um grande número de execuções extrajudiciais, e você terá as características de um estado criminoso.

Coreia do Norte

Outro exemplo óbvio é a Coreia do Norte. Há mais de 20 anos, existem relatos confiáveis de que a Coreia do Norte opera como um cartel. As autoridades norte-coreanas foram implicadas em tráfico de drogas, falsificação, crime cibernético, contrabando de tabaco, sequestro e muito mais. Normalmente, quando vemos uma máfia assumir o controle de um governo, isso funciona de baixo para cima. Mas a Coreia do Norte é totalmente de cima para baixo, com negócios ilícitos organizados por funcionários do governo, desde a alta liderança até diplomatas. O grande problema do país é que ele precisa de trocas internacionais. Mas eles não vendem nada e são párias internacionais. Então, falsificam dólares americanos, vendem drogas e se envolvem em outras atividades criminosas para ganhar dinheiro.

Dicas e Ferramentas

Observe os contratos: as gangues do crime organizado geralmente ganham dinheiro com comércios ilegais, como o de drogas. Em um governo corrupto, esses ganhos ilícitos virão de contratos estaduais. Quem tem o direito de perfurar petróleo? Quem tem o direito de derrubar árvores? Quem é o dono da companhia telefônica? Isso mostra quem são as pessoas favoritas em um estado mafioso.

Observe os ativos: a próxima etapa é definir os ativos. Rastreie quando um bem foi comprado, onde foi comprado, como foi comprado e, então, você poderá descobrir onde, durante o processo de contratos do governo, o dinheiro foi desviado. Cada indivíduo terá um pequeno grupo de pessoas ao seu redor que pode atuar como uma fachada para esses ativos. Você tem que descobrir quem são os laranjas, quem são seus advogados, quem são seus familiares e, em seguida, procurar por bens ligados a esses nomes.

Observe os registros públicos: para seguir a trilha dos ativos, você precisará examinar uma variedade de registros públicos: registros corporativos, registros de terras, registros de propriedades. A França recentemente disponibilizou seus registros de propriedades online – estamos encontrando todo o tipo de nomes interessantes lá.

Verifique dados vazados: há muitos dados bancários vazados que indicarão quem tem dinheiro e onde ele está. Você precisa se conectar a membros da GIJN como ICIJ e OCCRP, bem como a outras organizações que construíram bancos de dados de informações vazadas. Mesmo que tenham 10 ou 15 anos, esses dados podem ser valiosos. Um novo político pode aparecer repentinamente em um monte de bancos de dados antigos. Chegamos ao ponto em que houve vazamentos suficientes para que os dados se tornassem uma parte significativa do processo de reportagem. Muito tempo é gasto conectando vários vazamentos para rastrear o dinheiro. As informações também surgem de maneiras que não são necessariamente vazadas – de ataques hacker, ransomware ou raspagem de dados online. Os repórteres estão raspando centenas de conjuntos de dados regularmente. As pessoas agora estão descobrindo informações importantes como um efeito colateral de ataques de ransomware – porque muitas empresas não pagam o resgate e suas informações são vazadas.

Use técnicas tradicionais de reportagem: as reportagens investigativas não mudaram. Você não pode fazer tudo online. Muitos repórteres jovens e inexperientes não estão tão familiarizados com as técnicas de reportagem à moda antiga. Você ainda precisa desenvolver um relacionamento com a fonte, ainda precisa solicitar grandes quantidades de registros públicos. Alguns repórteres são particularmente bons no uso da abordagem tradicional, e outros são particularmente bons em reportagens online, e é melhor combinar os dois. A pesquisa colaborativa floresceu nos últimos anos. Um número surpreendente de grandes histórias é revelado porque a namorada de alguém colocou fotos de uma viagem em um iate no Instagram.

Use bancos de dados, mapas de rede: Aleph é uma de nossas grandes ferramentas de reportagem, e foi projetada e construída pela própria OCCRP. Colocamos todos os nossos dados nela. Aleph está conectado ao Linkurious, que pode ser usado para construir mapas de rede com base nos dados ocultos. Também possui uma funcionalidade de linha do tempo, para que você possa construir uma ordem cronológica dos eventos. Ele também permite referência cruzada, para que você possa comparar os bancos de dados entre si. Você pode usar ferramentas como o i2, mas elas são caras, e é por isso que os jornalistas geralmente não as usam muito. Existem várias ferramentas de análise de redes sociais disponíveis também, e algumas delas são gratuitas, mas isso requer alguém que tenha habilidades técnicas. A Aleph é gratuita e você também pode obter acesso ao Linkurious.

Colabore: todas as grandes histórias de corrupção e crime organizado são projetos transfronteiriços agora. Portanto, mais do que nunca, é fundamental ter uma equipe diversificada com diferentes áreas de especialização. Você precisa de repórteres locais, repórteres de segurança cibernética, pesquisadores e especialistas em redes sociais. Pessoas que trabalham com dados que possam minerar esses vazamentos. A OCCRP é uma rede e usamos essa rede para aprimorar as habilidades uns dos outros. É por isso que somos capazes de fazer muitas histórias e fazê-las rapidamente. Se você não tem uma organização com esse tipo de pessoal, precisa construir esses relacionamentos, usando organizações como a GIJN. Usamos um sistema Wiki para compartilhar informações e colaborar nas histórias. Usamos Signal para uma discussão segura entre nós. É bastante simples. Pode ser que existam ferramentas melhores para fazer isso, mas entre Signal, Wiki e Aleph, coordenamos todos os nossos projetos, e todas essas ferramentas estão disponíveis para qualquer repórter. 

Seja ético: você tem que ficar atento para certificar-se de escrever histórias que sejam do maior interesse do público. Acho que essa é a chave. Estamos constantemente discutindo este ponto entre nós: o público realmente precisa saber disso? Procuramos ter certeza de que tudo o que fazemos revela a corrupção, ou a forma como o governo – ou as empresas ou o crime organizado – está trabalhando, para que o público possa tomar melhores decisões sobre o que fazer.

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