{"id":3115609,"date":"2026-07-14T08:39:06","date_gmt":"2026-07-14T12:39:06","guid":{"rendered":"https:\/\/gijn.org\/?p=3115609"},"modified":"2026-07-20T01:55:22","modified_gmt":"2026-07-20T05:55:22","slug":"curiosidade-e-o-longo-caminho-para-a-verdade-licoes-de-um-premiado-reporter-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/artigos\/curiosidade-e-o-longo-caminho-para-a-verdade-licoes-de-um-premiado-reporter-portugues\/","title":{"rendered":"Curiosidade e o longo caminho para a verdade: li\u00e7\u00f5es de um premiado rep\u00f3rter portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>As ferramentas que Miguel Carvalho mais valoriza n\u00e3o s\u00e3o alimentadas por intelig\u00eancia artificial. S\u00e3o prateleiras repletas de arquivos em papel, cadernos bem gastos, in\u00fameras horas dedicadas \u00e0 leitura e conversas cara a cara. Em um momento em que o jornalismo \u00e9 cada vez mais avaliado pela rapidez, o premiado rep\u00f3rter investigativo portugu\u00eas continua a apostar na paci\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de 35 anos, Carvalho construiu uma carreira em torno de investiga\u00e7\u00f5es aprofundadas que privilegiam o tempo em detrimento da urg\u00eancia e a profundidade em detrimento do imediatismo. Depois de passar quase 24 anos na Vis\u00e3o \u2013 a principal revista de not\u00edcias de Portugal, abandonou a seguran\u00e7a de uma reda\u00e7\u00e3o permanente para se dedicar ao jornalismo freelance e \u00e0 escrita, convencido de que uma reportagem significativa requer tanto liberdade quanto persist\u00eancia.<\/p>\n<aside>&#8220;[Minha forma de trabalhar] ainda \u00e9 outra e ainda obedece a duas coisas em desuso: ler muito &#8211; e sobre tudo &#8211; e falar com pessoas olhos nos olhos\u201d. \u2014 Miguel Carvalho<\/aside>\n<p>O seu livro mais recente, \u201c<a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/penguinlivros.pt\/loja\/objectiva\/livro\/por-dentro-do-chega\/\">Por Dentro do Chega \u2013 A Face Oculta da Extrema-Direita em Portugal<\/a>&#8220;, reflete essa filosofia. Baseando-se em milhares de documentos internos e centenas de entrevistas, a investiga\u00e7\u00e3o oferece um olhar sem precedentes sobre o movimento de extrema-direita do pa\u00eds e tornou-se uma das obras de jornalismo investigativo mais comentadas em Portugal nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Nesta conversa com a GIJN, Carvalho reflete sobre o futuro do jornalismo investigativo, a import\u00e2ncia de desacelerar em uma era de urg\u00eancia permanente, os jornalistas que moldaram seu pensamento, os erros que o tornaram um rep\u00f3rter melhor e por que ele ainda acredita que a maior responsabilidade do jornalismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente informar, mas defender o direito do p\u00fablico de compreender o mundo.<\/p>\n<p><strong>GIJN: De todas as investiga\u00e7\u00f5es em que trabalhou, qual foi a sua favorita e porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_3109411\" style=\"width: 346px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3109411\" class=\"wp-image-3109411 size-medium\" src=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626-336x509.jpg\" alt=\"\" width=\"336\" height=\"509\" srcset=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626-336x509.jpg 336w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626-771x1168.jpg 771w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626-768x1163.jpg 768w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626-1014x1536.jpg 1014w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626-1352x2048.jpg 1352w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131626.jpg 1690w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3109411\" class=\"wp-caption-text\">O livro de Miguel Carvalho, \u201cPor Dentro do Chega \u2013 A Face Oculta da Extrema-Direita em Portugal\u201d, foi o resultado de cinco anos de investiga\u00e7\u00e3o. Imagem: Cortesia da Penguin Publishing.<\/p><\/div>\n<p><b>Miguel Carvalho:<\/b> Foi a que resultou no meu \u00faltimo livro \u201cPor Dentro do Chega \u2013 A Face Oculta da Extrema-Direita em Portugal\u201d. Implicou mais de cinco anos de investiga\u00e7\u00e3o sobre o primeiro partido de extrema-direita em Portugal a obter representa\u00e7\u00e3o parlamentar, hoje segunda for\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds. Embora o seu l\u00edder, Andr\u00e9 Ventura, tenha atra\u00eddo ampla repercuss\u00e3o midi\u00e1tica, at\u00e9 pelo discurso xen\u00f3fobo e anti-imigra\u00e7\u00e3o que difunde, os bastidores por tr\u00e1s do movimento \u2014 sua ascens\u00e3o pol\u00edtica, base eleitoral e pr\u00e1ticas internas \u2014 permaneciam, em grande parte, desconhecidos para o cidad\u00e3o comum. Obtive milhares de p\u00e1ginas de documentos internos e fiz centenas de entrevistas com antigos e atuais membros. Isso implicou um esfor\u00e7o e uma dedica\u00e7\u00e3o quase obsessivos, pois nem sempre foi f\u00e1cil ganhar o respeito e a confian\u00e7a das pessoas para falarem comigo. Esta investiga\u00e7\u00e3o contaminou toda a minha vida profissional e pessoal nos \u00faltimos anos, mas ver o trabalho reconhecido fez com que cada sacrif\u00edcio valesse a pena.<\/p>\n<p><strong>GIJN: Quais s\u00e3o os maiores desafios em termos de reportagem investigativa no seu pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><b>MC: <\/b>O maior desafio, infelizmente, \u00e9 a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia desse g\u00eanero de jornalismo. A situa\u00e7\u00e3o da imprensa em Portugal acompanha os desafios globais do jornalismo face \u00e0 \u201cditadura\u201d das big techs e do ecossistema digital, que desgastaram a democracia, enfraqueceram o escrut\u00ednio p\u00fablico e alimentaram a polariza\u00e7\u00e3o na base do discurso de \u00f3dio e da viol\u00eancia dirigida aos outros. Dado a sua posi\u00e7\u00e3o [geogr\u00e1fica] perif\u00e9rica, Portugal sofre tamb\u00e9m por n\u00e3o ter escala global. O jornalismo vive o seu per\u00edodo per\u00edodo mais fr\u00e1gil desde o retorno do pa\u00eds \u00e0 democracia, enquanto as reda\u00e7\u00f5es enfrentam condi\u00e7\u00f5es de trabalho cada vez mais prec\u00e1rias e recursos cada vez mais escassos. Em muitos casos, o julgamento editorial cedeu lugar \u00e0 busca por n\u00fameros de audi\u00eancia. A presen\u00e7a e a relev\u00e2ncia da m\u00eddia em todo o pa\u00eds \u2014 particularmente entre as gera\u00e7\u00f5es mais jovens \u2014 diminu\u00edram consideravelmente. O jornalismo de investiga\u00e7\u00e3o, hoje, \u00e9 um luxo que grande parte da imprensa n\u00e3o pode permitir-se em termos de tempo, espa\u00e7o e dinheiro. Pratic\u00e1-la tornou-se um ato de resili\u00eancia e compromisso c\u00edvico. Reflete a fragilidade das nossas institui\u00e7\u00f5es e, em \u00faltimo caso, da pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n<p><strong>GIJN: Qual foi o maior obst\u00e1culo ou desafio que enfrentou no seu tempo como jornalista de investiga\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><b>MC:<\/b> A passagem a jornalista freelancer. Tinha o estatuto de grande rep\u00f3rter na Vis\u00e3o, a principal revista de not\u00edcias de Portugal, onde trabalhei quase 24 anos, quando decidi sair. Percebi que est\u00e1vamos entrando no que parecia ser uma crise sem fim e j\u00e1 n\u00e3o me reconhecia no incessante fluxo de not\u00edcias em que o jornalismo vive hoje. Apesar de a Vis\u00e3o ter sido a melhor reda\u00e7\u00e3o onde trabalhei e onde tive, at\u00e9 o fim, um estatuto privilegiado \u2014 um que permitia estar um ou dois meses dedicado a um \u00fanico tema \u2014 a verdade \u00e9 que j\u00e1 estava a fazer um certo luto. Praticamente, toda a minha vida profissional foi no \u201cquadro\u201d das empresas de comunica\u00e7\u00e3o e nunca tinha arriscado viver sem essa seguran\u00e7a do sal\u00e1rio certo e das circunst\u00e2ncias mais ou menos previs\u00edveis. Tive de redefinir uma parte dos meus or\u00e7amentos familiares e dediquei a maior parte do tempo \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e \u00e0 escrita do meu livro. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o quotidiano da esmagadora maioria dos jornalistas. Muitos, com imensa qualidade, acabam abandonando totalmente a profiss\u00e3o em busca de outras carreiras.<\/p>\n<p><b>GIJN: Qual \u00e9 a sua melhor dica para entrevistas?<\/b><\/p>\n<aside>&#8220;Nestes tempos conturbados, se ningu\u00e9m estiver disposto a filtrar, verificar e reportar sobre o mundo com integridade, credibilidade e profundidade \u2014 combatendo a avalanche di\u00e1ria de desinforma\u00e7\u00e3o e mentiras \u2014 as v\u00edtimas n\u00e3o ser\u00e3o apenas os jornalistas&#8221;. \u2014 Miguel Carvalho<\/aside>\n<p><b>MC:<\/b> Honestamente, n\u00e3o tenho resposta para esta pergunta. E isso \u00e9, j\u00e1 em si, um problema. A imprensa, os seus donos, os seus editores, as suas pr\u00e1ticas cotidianas e os recursos dispon\u00edveis mudaram de tal forma que qualquer jovem que hoje tente entrar na profiss\u00e3o tem apenas garantida a precariedade salarial e ritmos de trabalho implac\u00e1veis. Os relatos que me chegam de jovens graduados que andam, de porta em porta, em entrevistas de emprego no setor, s\u00e3o arrepiantes. Ningu\u00e9m parece saber como se promover e o que dizer. E mesmo os que j\u00e1 passaram pelo setor e se encontram desempregados dizem que o curr\u00edculo n\u00e3o vale absolutamente nada.<\/p>\n<p><b>GIJN: Quais s\u00e3o as ferramentas de reportagem, bancos de dados ou aplicativos favoritos que usa nas suas investiga\u00e7\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p><b>MC:<\/b> Confesso que sou ainda um bocado jur\u00e1ssico na minha forma de trabalhar. Uso alguns recursos digitais, mas nenhum que destaque em particular. Mesmo quando se trata de IA, uso com parcim\u00f4nia e com uma boa dose de ceticismo. Para mim, \u00e9 apenas uma ferramenta que acelera certas tarefas, nada mais. Sou um acumulador de pap\u00e9is ainda. Recorto ou imprimo os artigos a partir de edi\u00e7\u00f5es digitais sempre que encontro algo que quero guardar. Esses arquivos est\u00e3o dispersos por toda a casa e armazenados em dois anexos, um deles exterior \u00e0 minha resid\u00eancia. A mem\u00f3ria coletiva das reda\u00e7\u00f5es, e, de muitas maneiras, do pr\u00f3prio pa\u00eds, est\u00e1 desaparecendo gradualmente. Em alguns universos jornal\u00edsticos, j\u00e1 existem pessoas que parecem acreditar que tudo o que vale a pena saber est\u00e1 no Google ou na IA. Felizmente ou n\u00e3o, a minha forma de trabalhar ainda \u00e9 outra e ainda obedece a duas coisas em desuso: ler muito &#8211; e sobre tudo &#8211; e falar com pessoas olhos nos olhos\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_3109434\" style=\"width: 2058px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131621.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3109434\" class=\"wp-image-3109434 size-full\" src=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131621.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1536\" srcset=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131621.jpg 2048w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131621-336x252.jpg 336w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131621-771x578.jpg 771w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131621-768x576.jpg 768w, https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131621-1536x1152.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3109434\" class=\"wp-caption-text\">\u201cSou um acumulador de pap\u00e9is ainda. Recorto ou imprimo os artigos a partir de edi\u00e7\u00f5es digitais sempre que encontro algo que quero guardar. Esses arquivos est\u00e3o dispersos por toda a casa,\u201d explica Carvalho. Imagem: Cortesia de Mariana Correia Pinto<\/p><\/div>\n<p><b>GIJN: Qual \u00e9 o melhor conselho que recebeu na sua carreira e que conselho daria a um aspirante a jornalista investigativo?<\/b><\/p>\n<p><b>MC:<\/b> Tenho sempre como refer\u00eancia o jornalista George Steer, cujos relatos dos bombardeios de Guernica inspiraram <a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/guernica.museoreinasofia.es\/en#bombardeo\">um dos quadros mais famosos do mundo<\/a>. Sempre que me perguntam \u2014 por vezes com um sorriso ir\u00f4nico ou c\u00ednico \u2014 se ainda acho que o jornalismo possa mudar o mundo, eu sempre respondo com estas palavras: \u201cN\u00e3o sei. Mas \u00e9 meu dever escrever como se pudesse\u201d. Nestes tempos conturbados, se ningu\u00e9m estiver disposto a filtrar, verificar e reportar sobre o mundo com integridade, credibilidade e profundidade \u2014 combatendo a avalanche di\u00e1ria de desinforma\u00e7\u00e3o e mentiras \u2014 as v\u00edtimas n\u00e3o ser\u00e3o apenas os jornalistas. As maiores v\u00edtimas ser\u00e3o os pr\u00f3prios cidad\u00e3os, juntamente com o escrut\u00ednio p\u00fablico do qual nossas democracias dependem. Porque isso significaria aceitar um mundo onde a mentira e a verdade parecer\u00e3o iguais.<\/p>\n<p><b>GIJN: Quem \u00e9 um jornalista que admira e por qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<p><b>MC:<\/b> S\u00e3o v\u00e1rios, e continuam a me inspirar at\u00e9 hoje. Costumo fazer releituras dos seus trabalhos e livros regularmente, sempre descobrindo algo novo. <a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/articles\/martin-caparros-long-a-chronicler-of-frontiers-and-revolutions-now-writes-his-own-story\/\">Martin Caparr\u00f3s,<\/a> <a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/pushkinpress.com\/our-authors\/leila-guerriero\/\">Leila Guerriero<\/a>, <a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.randomhouse.com\/kvpa\/talese\/\">Gay Talese<\/a>, <a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/tcij.org\/person\/seymour-hersh\/\">Seymour Hersh,<\/a> <a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.robertcaro.org\/\">Robert A. Caro<\/a> e <a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.pulitzer.org\/finalists\/katherine-boo\">Katherine Boo<\/a> moldaram a maneira como vejo a complexidade do mundo, das pessoas e das circunst\u00e2ncias que as cercam. Ensinaram-me a import\u00e2ncia de n\u00e3o dar nenhum \u00e2ngulo por garantido e a questionar todas as suposi\u00e7\u00f5es. Lembram-me que a realidade \u00e9 sempre mais complexa do que aparenta \u00e0 primeira vista e que nosso trabalho como jornalistas \u00e9 questionar constantemente nossas pr\u00f3prias percep\u00e7\u00f5es. A Katherine tornou-se mesmo, a dada altura, uma esp\u00e9cie de musa por, assim como eu, n\u00e3o ter uma carta de motorista! Por mais estranho que pare\u00e7a, isso acabou se revelando uma verdadeira vantagem. Apesar de todos os inc\u00f4modos, me for\u00e7ou a sujar ainda mais os sapatos no terreno e ver o mundo de uma forma que normalmente n\u00e3o veria. Katherine e eu somos da mesma esp\u00e9cie \u2014 uma que talvez, infelizmente, esteja em vias de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>GIJN: Qual foi o maior erro que cometeu e que li\u00e7\u00f5es aprendeu?<\/b><\/p>\n<aside>\u201cN\u00e3o tenho alertas de not\u00edcias e n\u00e3o me esfor\u00e7o para estar atualizado a cada minuto ou a cada hora. \u00c9 a forma que encontrei de manter alguma sanidade mental e permanecer suficientemente distante para refletir claramente\u201d. \u2014 Miguel Carvalho<\/aside>\n<p><b>MC: <\/b>Nos anos que se seguiram aos ataques do 11 de setembro e partir dos grandes conflitos mundiais decorrentes, cometi v\u00e1rios erros de avalia\u00e7\u00e3o, sobretudo em mat\u00e9rias que escrevi para edi\u00e7\u00f5es online. Algumas vezes, deixei que as minhas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es sobre um determinado acontecimento pesassem mais do que o pr\u00f3prio relato. Senti-me profundamente desconfort\u00e1vel, mas aprendi uma das li\u00e7\u00f5es mais importantes da minha carreira. A imparcialidade pura no jornalismo \u00e9 um mito. Entretanto, amadureci muito quando percebi a imperiosa necessidade de filtrar e blindar cada dado e informa\u00e7\u00e3o,\u00a0 resistindo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de ceder \u00e0 urg\u00eancia do momento. Felizmente, esses momentos foram raros, mas me lembraram que nunca basta relatar o que parece ser verdade. Nossa responsabilidade \u00e9 continuar nos questionando at\u00e9 sabermos, com total profundidade, se de fato \u00e9 verdade.<\/p>\n<p><b>GIJN: Como evita o esgotamento na sua \u00e1rea de trabalho?<\/b><\/p>\n<p><b>MC:<\/b> Sempre fui mais do \u201cslow journalism\u201d do que desta f\u00e1brica vertiginosa de produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias jornal\u00edsticas em massa. Mas h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o inteira de jornalistas que n\u00e3o pode se dar ao luxo dessa escolha. N\u00e3o importa o qu\u00e3o talentosos ou comprometidos sejam, muitos s\u00e3o for\u00e7ados pela necessidade econ\u00f4mica a manter um ritmo insustent\u00e1vel. No meu caso, reduzi substancialmente a exposi\u00e7\u00e3o a informa\u00e7\u00e3o e debates televisivos. N\u00e3o tenho alertas de not\u00edcias e n\u00e3o me esfor\u00e7o para estar atualizado a cada minuto ou a cada hora. \u00c9 a forma que encontrei de manter alguma sanidade mental e permanecer suficientemente distante para refletir claramente, mergulhar em temas complexos, e dedicar tempo a livros, artigos e reportagens que me ajudem a compreender o significado mais profundo dos eventos que moldam o nosso mundo.<\/p>\n<p><b>GIJN: O que acha frustrante no jornalismo investigativo ou espera que mude no futuro?<\/b><\/p>\n<p><b>MC: <\/b>O que mais me frustra \u00e9 a incapacidade de muitos gestores das empresas jornal\u00edsticas e dos seus editores, sobretudo no meu pa\u00eds, em perceber que, em um mundo cada vez mais polarizado, fren\u00e9tico e disruptivo, o jornalismo investigativo ser\u00e1 um dos fatores determinantes para uma popula\u00e7\u00e3o mais bem informada e, em \u00faltimo caso, para a sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria democracia. H\u00e1 muito que espero um sobressalto coletivo da ind\u00fastria jornal\u00edstica \u2014 uma disposi\u00e7\u00e3o para repensar os h\u00e1bitos e incentivos que est\u00e3o gradualmente degradando o jornalismo por dentro. Mas, a cada vez que penso ver uma luz ao fundo do t\u00fanel, percebo que \u00e9 apenas o pr\u00f3ximo trem vindo em nossa dire\u00e7\u00e3o, pronto para varrer tudo \u00e0 frente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131625-e1783507109110.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3109458 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/gijn.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1000131625-140x140.jpg\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"140\" \/><\/a><a rel=\"noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/pt.linkedin.com\/in\/maria-moreira-rato-a8a61010b\"><b><i>Maria Moreira Rato<\/i><\/b><\/a><i> \u00e9 uma jornalista freelance sediada em Lisboa, Portugal. Escreve sobre sa\u00fade, direitos humanos, igualdade de g\u00eanero e quest\u00f5es sociais, com especial \u00eanfase em reportagens de investiga\u00e7\u00e3o aprofundadas. Seu trabalho foi publicado no P\u00fablico, no SOL, no i, na Comunidade Cultura e Arte e n&#8217;O Cidad\u00e3o, entre outros, e foi distinguido com v\u00e1rios pr\u00eamios de jornalismo.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista explica como construiu sua carreira em torno de investiga\u00e7\u00f5es de longa dura\u00e7\u00e3o e detalha o processo por tr\u00e1s de seu livro recente, que exp\u00f5e a extrema-direita em Portugal.<\/p>\n","protected":false},"author":3031175,"featured_media":3109387,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_price":"","_stock":"","_tribe_ticket_header":"","_tribe_default_ticket_provider":"TEC\\Tickets\\Commerce\\Module","_tribe_ticket_capacity":"0","_ticket_start_date":"","_ticket_end_date":"","_tribe_ticket_show_description":"","_tribe_ticket_show_not_going":false,"_tribe_ticket_use_global_stock":"","_tribe_ticket_global_stock_level":"","_global_stock_mode":"","_global_stock_cap":"","_tribe_rsvp_for_event":"","_tribe_ticket_going_count":"","_tribe_ticket_not_going_count":"","_tribe_tickets_list":"[]","_tribe_ticket_has_attendee_info_fields":false,"republication-tracker-tool-hide-widget":false,"footnotes":"","_tec_slr_enabled":"","_tec_slr_layout":""},"categories":[23170],"tags":[23901,28726,19656,28849],"gijn_topic":[],"series":[],"gijn_language":[],"gijn_region":[],"class_list":["post-3115609","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-extrema-direita","tag-jornalismo-freelance","tag-jornalismo-investigativo-pt-pt","tag-livros"],"acf":[],"ticketed":false,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3031175"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3115609"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115609\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3133110,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3115609\/revisions\/3133110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3109387"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3115609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3115609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3115609"},{"taxonomy":"gijn_topic","embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gijn_topic?post=3115609"},{"taxonomy":"series","embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/series?post=3115609"},{"taxonomy":"gijn_language","embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gijn_language?post=3115609"},{"taxonomy":"gijn_region","embeddable":true,"href":"https:\/\/gijn.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gijn_region?post=3115609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}